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» GOSTO DE SANGUE, DE ERIKA LIPORACI E ILUSTRAÇÕES FRANCCI LUNGUINHO |
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| » Rio de Janeiro, Sexta, 02 de Janeiro de 2009 | |
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Eles estão quase à porta, posso ouvir. Vi da janela quando desceram do veículo. De cara, entendi que o negócio era comigo. Pensei em escapulir pela escada enquanto subissem pelo elevador, mas um deles ficou plantado na entrada do prédio. Os outros dois entraram com ar decidido. Sei o que vieram fazer aqui. Também sei que protestos serão inúteis: eles não vieram para conversar. Tudo já foi decidido. Como as coisas chegaram a esse ponto sem que eu me desse conta?
Não, isso não é bem verdade. Eu me dei conta de cada passo que dei... e, ainda assim, não pude deixar de dá-los.
A campainha! E ainda têm a cara-de-pau de tocar a campainha. Como se estivessem dispostos a seguir as regras de civilidade e simplesmente ir embora após três ou quatro toques em vão.
Merda! Corri até a janela da área de serviço, que dava para uma ruazinha lateral. Escancarei-a, enquanto calculava as chances de conseguir cair de uma altura de quatro andares e depois levantar e sair caminhando contra o vento, sem lenço sem documento. Uma rápida olhada para a calçada me convenceu de que aquela fora uma das idéias mais estúpidas que já tive. E olha que ultimamente idéias infelizes é o que não têm faltado no meu repertório.
Lamentei minha posição a favor do desarmamento. Um três-oitão salvaria minha pele. Não que eu fosse capaz de matar alguém, mas um tiro no joelho de cada um é algo que minha consciência poderia agüentar numa boa. Era o que bastaria para resolver o meu problema. Ao menos, naquele momento.
Foi quando ouvi que eles estavam forçando a porta. Cochichavam. Logo os cochichos se transformaram num barulho surdo, que adivinhei ser o corpo de um deles se jogando de encontro à minha bela porta de madeira.
Acuado como estava, a dignidade era tudo que restava. Fui até a cozinha. Quando eles finalmente botaram a porta abaixo, me encontraram sentado no sofá. Sorvendo displicentemente o que seria minha última taça de Merlot - que, ao contrário do que acham alguns enólogos bestas, é um puta vinho.
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