Chinelo: Ele não se arrasta, dança pelos caminhos da vida!
Fotos: WALDEIR CABRAL

- “Por que não pagar o que devemos com os abacaxis que descascamos todos os dias?”
No princípio não era o verbo. Tudo era período composto por insubordinações. Todos os sujeitos misturados. Os predicados, porém, eram os melhores. E entre todos, menino ainda que começava a descobrir que o homem apesar de fruto de um sopro divino era uma invenção que não iria dar certo, descobri um homem chamado Chinelo. E como a ordem dos fatores não altera esse produto nem a minha história, Chinelo recebeu o apelido de João Batista da Cruz.
Como é mesmo o teu nome? E ele, fazendo o sinal da cruz e parando bem no amém do queixo dom quixotesco, repetiu o sinal. Não ouviu? ! Não tinha ouvido. Chinelo, embora não tenha medo do que fala, fala para dentro. Pois bem. Insisti. O meu nome é João Batista da Cruz. Brasileiro, nunca casado, sem RG, Titulo de Eleitor – nem título protestado – e Certidão de Nascimento. Nem isso?! Nem isso. Nasceu e nunca precisou de Cartório para ser o cidadão que diz existir dentro do caminhante Chinelo. Sou João Batista da Cruz. Diz, bate no peito e reconhece a firma.
Vai fazer – mês de outubro, o mesmo em que aniversaria o escriba – 83 anos. Foi assim que ouvi. Quantos anos mesmo? Agora respondeu mais rápido que da vez primeira. Dessa vez não somente ouvi, mas escutei. Tem 83 anos de caminhada por esse Brasil de Getúlio Vargas. Por que Getúlio Vargas? Ora, pra que discutir com o Chinelo?! Getúlio Vargas, o gaúcho, o “baixinho que saiu da vida para entrar na história - abre um sorriso banguela, ele gosta de frases feitas – é o presidente que “poderia ter feito desta nação um país”. Não seria o contrário Chinelo? Não respondeu.
Uma das tiradas de Chinelo que tirou todos de tempo foi um papo antigo que tivemos, por acaso, enquanto ele tomava um cafezinho assistindo ao jornal global da manhã. A sua solução para a nossa dívida externa entrou para a minha história. Vivíamos - Chinelo, a sua maneira, mais que o escriba - ainda aquele inferno que não era os outros, mas nós mesmos, em que o Verde e Amarelo tirava o dinheiro dos que por aqui precisavam para emprestar aqueles que dele precisavam menos ainda. Vivíamos distante dessa Neverland que o Lula está nos comprando e vendendo lá fora.
Não entendia o porquê de um país tão rico, dinheiro saindo pelos ladrões e entrando em ilhas paradisíacas do outro lado mundo, ser tão vergonhosamente cobrado por uma dívida que ele não contraiu nem autorizou alguém a contrair em seu nome. Pausa. Embora muitos não saibam – por aqui, como por aí também, se pobre cheira mal, mendigo está podre é contagioso e ninguém se aproxima dele – Chinelo, mesmo se dizendo analfabeto, é um sujeito politizado. E vocês não imaginam o quanto.
Por que não pagamos logo o que eles dizem que estamos devendo e fim de papo? Porque, ele mesmo respondeu, não podemos pagar o que já pagamos com juros e correção monetária. Mas estão cobrando, obtemperei. Então paguemos que a gente tem. Respondeu. Mas até aquele instante não entendia sua resposta. Ele, porém, um pouco irritado, estado raro de chinelo, me explicou.
Acabara de passear os seus pés pelo espaço da nossa feira livre que um dia fora o campinho das muitas peladas que bati e onde nunca sonhei fazer parte dessa medíocre seleção do Dunga. Por lá passeando, sem pressa, pois diferente do Paulinho da Viola o meu personagem nunca correu para ir buscar seu lugar no futuro, viu milhares de abacaxi espalhados pelo chão. Tinha abacaxi como o dinheiro saindo pelos ladrões dos nossos políticos. Era abacaxi que não acabava mais!
Acho que aquela foi a primeira vez que dediquei maior atenção as conversas de Chinelo. Mais que um chinelo, Chinelo era calça de veludo, sem bunda de fora, e camisa de linha puro. Não vi o mundo de abacaxi que descrevi no parágrafo anterior. Mas conhecendo a feira como a palma da minha mãe e ele, Chinelo, melhor do que eu, os solados dos pés, imaginei. Zil abacaxis. E apesar de sabermos o abacaxi que todos nós temos que descascar diariamente para sobreviver e agüentar esses ex-crotos que nos descascam todos os dias, se não bastasse, distribuíamos, como ainda assim o fazemos, abacaxis por aqui e alhures.
Ora, embora muitos achem que não devemos mais pagar a nossa dívida externa, acho que se realmente devemos, acho, insisto, devemos pagar. Esse, como vocês podem perceber, mesmos sem aspas, foi o Chinelo. Só mais uma coisa – gosto de coisas, elas significam muito para mim, portanto, não são “apenas” coisas - que Chinelo queria acrescentar.
Parou, balançou a cabeça, e continuou. A coisa viria e dela nunca mais esqueceria.
Mas qual seria a coisa do Chinelo? Simples. O país reconheceria que estava devendo e o país a quem o Brasil devia, sem nenhuma desculpa, aceitaria que o país devedor pagasse sua dívida com aquilo que ele tinha. Sentiram? Isso mesmo. O Brasil pagaria toda a sua dívida com abacaxi! Devo, não nego, mas pago com o que tenho. E tome abacaxi nos rabos dos gringos!
Chinelo, esse personagem nosso, especialmente meu que lembra o Gentileza carioca, agora, também, pertence a poetas e corredores de ruas. Estou deveras satisfeito. Um personagem com muitas histórias. Um dia que com certeza chegará, pendurada a fantasia, paletó e gravata mofando no armário do tempo, os meus dedos - ainda ágeis, queira Ele - seguirão os caminhos de São Chinelo, e contarei tudo em livro para vocês. E nesse dia caminharemos juntos, todos felizes e bem calçados, com os pés de Chinelo.
