Entre Partir ou Morrer, Prefiro Ficar no Meio Fazendo Companhia a Pedra do Caminho!
Tem dias como naquela música do Chico Buarque que a gente amanhece com aquela sensação de quem partiu ou morreu. Aí o sujeito pára, acentua o para torná-lo besteiramente (sic) mais um verbo, percebe que não saiu dos limites de sua província, e, se não bastasse, toca na pele morena bronzeada pelo sol de Tambaú e se descobre vivo.
Porém, mais que de repente, descobrindo-se vivo e no mesmo lutar, se pergunta: e daí, em que a minha vida vai melhorar ou piorar com a descoberta? Sinceramente, pior, a minha vida não nunca será. Por quê? O porquê é simples. Apesar das porradas e tropeços pelas ruas descalças ou calçadas da minha bela e querida cidade Parahyba, desafio quem possa ter uma vida melhor - desculpem, leitores, iria acrescentar "mais digna" - que a deste escriba que quando não está cão uivando para a lua sente que a lua, como a lagoa de aluá do Ednardo, está morando no seu peito!
Às vezes, sem dar um passo em direção ao desconhecido ou para visitar plagas outras tão conhecidas minhas, dou asas à imaginação e saio por aí planando até encontrar um porto seguro onde possa atracar o meu navio cheio de esperanças. Se o país no qual eu vivo não deu certo, podem acreditar que a culpa não foi minha. Da minha parte, em nome da família que sempre foi parte minha, tudo tenho feito para que o nosso Verde e Amarelo não amarele, todos os dias, de vergonha desses sacanas e ex-crotos que fazem dele simples balão de ensaio para as suas ex-crotas experiências.
A vida, como lembrou um dia o poetinha, é uma só. Por mais que a Senhora Caetana, como costuma lembrar o Ariano Suassuna a cada vento que passa sobre o seu telhado anunciando a hora da última ventania, insistia em me espreitar em cada esquina, disfarço, passo o lenço nos lábios molhados dessa doce chuva primaveril, lanço um olhar comprido para o terno ainda em cima da cama, e digo é cedo.
Porém, para que não imaginem morte onde só existe a vontade de viver, mesmo sabendo que vou um dia e nesse dia nem o direito de espernear é respeitado, não penso um só momento em preparar a mesa da sala para causar nela uma boa impressão. Sou rosto na janela aberto para um mundo onde as porradas que recebo não me deixam marcas. O mundo lá fora, se não é feito de papel confete, nunca há de impedir que eu me divirta com as únicas serpentinas que sobraram do carnaval passado.
Em tempos outros, com tudo ou faltando muito pouco para tudo ser, os homens achavam que valia a pena qualquer coisa, desde que se respeitasse pelo caminho, os meios, suas pobres almas ainda não pequenas. Hoje, os homens se apequenaram, e suas almas também. Tanto que por mais que baixem os seus preços não encontram com facilidade quem as comprem. Os tempos faustos, e bom Fausto, o Wolff, infelizmente, se foram. Ninguém duvida mais que um céu, apesar das almas pequenas, espera, como porto seguro, as suas asas cansadas. O inferno, as manchetes dos jornais, todos os dias, anunciam, não está no Haiti, mas aqui!
Não faz frio por aqui. A minha cidade, hoje, mais deles que minha e dos meus, é quente como o bafo da hidra de Lerna. Um campo que se Caminha por aqui tivesse caminhando, mesmo sem que fosse plantado, diria que a mãe natureza tudo daria sem nada pedir em troca. Seca? Secos são os olhares vazios de esperança e cheios de fome dos meninos que sentam à mesa num fundo do quintal que dá para o meu rio Jaguaribe. O mesmo que lavou os corpos dos três filhos de Penha, e os devolveu faltando-lhes as almas.
Partir ou morrer não é muito diferente de ficar e não saber o que é viver. Se a vida, como gritara em tempos outros o genial palhaço de Olinda, é um desmantelo, me mate que sou muito vivo. E por acreditar nessa vida que hoje e mais que nunca não tem nada de Severina, tão cedo, assim como todos os meus que trago como tatuagem na pele da memória, poderei me sentir como se morto estivesse, ou partido, e as partes, as minhas, atiradas às feras do canil Verde e Amarelo.
Até quinta, Isabelas.
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*Humberto de Almeida é escritor.
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