A MÚSICA DE SÃO JOÃO, SEM FOGUEIRA, É UM VERSO DE PÉ QUEBRADO!
No Maior São João do Mundo da cidade de Campina Grande, a Itu nordestina, a tradicional Fogueira de São João está proibida. Por aqui, acender uma fogueira passou a ser um delito mais grave que o de abrir chaminés o ano inteiro, espalhando o seu veneno mortal nas caras de inocentes úteis e inúteis. Por isso, se os não nativos dessas plagas onde as únicas fogueiras conhecidas são as das vaidades, resolverem aparecer por estas plagas em busca do fogo sagrado das tradicionais fogueirinhas que tanto inspiraram os nossos poetas e hoje ainda nos inspiram, podem tirar o cavalinho da chuva e apagar a chama desse desejo. Pelo menos neste mês de junho, vender madeira ou acender fogueiras é crime. E, sendo o acendedor de fogueiras - belo título para romance - primário, multa-se; com antecedência incendiária, cadeia.
Vocês por aí não podem imaginar como fica difícil, por aqui, imaginar um São João sem fogueira. São João sem fogueira é como um sorriso de boca banguela; forró pé de serra sem sanfona choradeira; tapioca nordestina sem coco ralado na hora; natal sem presépio; carnaval sem a Marcha da Cueca do nosso Livardo Alves, e uma partida de futebol sem um gol enchendo a rede de alegria. Sem fogueira para pular, assar milho, soltar rojões, balões e foguetes, fotografá-la com os olhos ardendo da canção, o São João será mais uma festa igual a tantas outras, onde o apaixonado olha para o céu e não vê a beleza - "olha pro céu meu amor, vê como ele está lindo!" - que o poeta mostra para sua amada.
Tudo começou quando o promotor do Meio-Ambiente (existe!) de Campina Grande, essa do Maior São João do Mundo, em defesa de outras coisas ambientais, resolveu punir em até R$ 1 mil quem desobedecer a sua determinação. A preservação do meio-ambiente se faz necessária, argumentou, e as fogueiras, além de acabarem com as nossas florestas - e o escriba pensando que vivia em uma cidade litorânea, onde a única "floresta" existente é composta de algas marinhas - contribuem para a buracaria de nossa camada de ozônio (risos). Por outro lado, esse meu e de muitos, a cultura, a tradição nordestina, a livre manifestação popular dos parahybanos, não carecem de preservação.
Isso mesmo o que vocês acabaram de ler. E entre os muitos argumentos do ínclito promotor-ambiental - seria cômico, se não fosse trágico - estão ainda a redução do aquecimento global e a obrigação de proteger as nossas florestas, como se a Parahyba fosse outra Amazônia. Se faltava alguma coisa para que o escriba, considerando a importância de sua fogueirinha, se sentisse cidadão do primeiro mundo, depois de ouvir do respeitável defensor do nosso estado sem poluição que não poderíamos agir como os Estados Unidos, Japão, China et caterva, sufocando o planeta com toneladas de lixo e gás carbônico, contribuir para esse "globocídeo", senti, como não diria o Caetano Veloso, uma vontade féladaputa de não ser americano. Do norte, ressalte-se, do Norte.
Sem pensar em desobedecer a Lei, instrumento que dela sou, pensei mesmo foi como seria um São João sem fogueira para iluminar as suas belas marchinhas. O nosso Luiz Gonzaga, por exemplo, se não morresse de tédio antes, numa fogueira somente sua no quintal de casa, vez que na porta de casa estaria proibido, morreria queimado. Imaginem, por exemplo, a falta que faria uma fogueirinha em sua doce e terna "Olha Pro Céu", (Luiz Gonzaga/José Fernandes), onde a cor desagua em multicor, deixando o céu em festa, e no São João um coração presenteado e incendiado por essa mesma inocente fogueirinha. E a sua Asa Branca sem uma fogueira para comparar com o ardor dos olhos causado pela madeira pegando fogo a terra seca do sertão?
O que seriam dessas marchinhas se naqueles tempos idos um promotor tivesse promovido - sem dúvidas, puro despotismo - a queima dessa tradição? Este escriba, por exemplo, nunca teria assistido as enormes línguas de fogo cuspidas pelas fogueiras, todas feitas pelo seu irmão João Heráclito, um mestre nessa arte, erguidas na porta de casa, "em homenagem a São João" (São João na Roça - Luiz Gonzaga e Zé Dantas). E a bela quadrinha de Getúlio Marinho e João Bastos Filho, "Pula a fogueira, Iaiá!/Pula a fogueira, Ioiô!/Cuidado para não se queimar/Olha que a fogueira/Já queimou o meu amor!"? Mais uma: e as marchinhas, sem as fogueiras, como teriam chegado aos ouvidos deste escriba para quem o São João é o próprio irmão acendedor de fogueiras?
Sem a fogueira de são João, a música junina não seria a mesma. O promotor campinense na sua boa intenção de preservar o ambiente, esqueceu de preservar história da fogueira e da música nascida sob a sua bênção. Imaginem os inspirados Carlos Braga e Alberto Ribeiro, por exemplo, sem uma fogueira ("O balão vai subindo/ vem caindo a garoa/O céu é tão lindo e a noite é tão boa/ São João! São João!/Acende a fogueira no meu coração.) para acender-lhes os corações enfogueirados? E Benedito Lacerda e Oswaldo Santiago (Pedro,Antonio e João) contando as desventuras de uma noiva desesperada enquanto a fogueira queimava e o balão subia?
Nascido, vivido e vivendo parahybanadamente por aqui, tenho certeza que o verde promotor, apesar da boa intenção, nunca conseguirá apagar a fogueira acesa em nossas memórias. Nem com toda a água da nossa costa litorânea. O inquisitivo promotor esqueceu que é impossível apagar uma tradição por Lei ou Decreto. Luiz Gonzaga, o "cara" da música nordestina, e Carmelina, estão com a razão: "Chegou a hora da fogueira - todos por aqui, mesmo não estando visível na porta da casa, trazem sempre...- uma fogueira dentro do meu coração"!
Uma canção de amor sem luar, seja esse do sertão ou não, falta alguma coisa. Uma festa de São João sem fogueira, muitas coisas estão faltando. Até o genial compositor carioca, Chico Buarque, valeu-se da lembrança desse símbolo junino (Se lembra da fogueira/ se lembra dos balões...) para iluminar a sua bela e poética história musicada pelo Sivuca (sei, a música já existia). Afinal, quem não se lembra ainda das figuras iluminadas de Luiz Gonzaga e Zé Dantas mostrando o poeta olhando a terra ardendo e comparando a uma fogueira de são João (Asa Branca)?
A música nordestina não sobreviveria, bela e viva como sobreviveu (sic), sem a existência de uma poética fogueira como musa inspiradora. Tradição não se extingue com multa ou prisão. Uma rima, apenas, nunca solução. O nordestino, como tatuagem, por onde andar ou estiver, há de sempre carregar uma fogueira de São João acesa dentro do peito. E na canção, por mais que a lei endureça, continuará acesa como um farol a iluminar o caminho da poesia.
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*Humberto de Almeida é escritor.
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