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» Humberto de Almeida publica o blogue EU PLURAL // Este autor escreve às quintas-feiras

» JOÃO PESSOA, 31 de julho DE 2008

Carrego os meus mortos dentro do peito, pois sou todo coração!



1 - Todo bom sujeito era chamado por ele de "baraúna". Um sujeito baraúna. E assim, por muito tempo, todos os bons sujeitos e amigos meus eram baraúnas. Naqueles anos eu tinha uma enorme - hoje, pequena, algumas árvores tombaram - floresta de amigos que envergavam e não quebravam. Mas, somente mais tarde, deixando o menino curioso, muito curioso, em meu bairro Jaguaribe, embora já carregasse essa floresta comigo, descobriria que baraúna é aquela madeira duríssima, e do tipo que imaginava: envergava, mas não quebrava, usada como dormentes. Trocando em miúdos: para ele (sei do cacófato) baraúna era o sujeito que além de bom, era honesto e amigo.

B - De tantas vezes repetidas, todas verdadeiras, pois era um homem de verdade e da verdade, acabei aprendendo o significado dessas palavras. Baraúna e dormente. Anos depois, doente, descobriria - sem lamentar, pois nunca foi disso - que alguns sujeitos considerados por ele "baraúnas", com a sua doença, transformaram-se em "madeira podre", insensatos, dormentes. Seu nome: Heráclito de Almeida.

E - Se nunca levou em toda a sua vida uma vida cigana, de cigana, como todos diziam, tinha uma característica: tudo seu era objeto de troca. O tudo, porém, fique claro, se restringia as coisas que ela considerava – e eram - fugidias. Da vida, pensava, nada se levava. Estava certa. Não levou. Deixou, entre tantos bons exemplos, a vergonha maior e a dignidade da qual nunca abrira mão. Nada se leva. E por isso mesmo, naquela sua roupa conhecida, elevava-se todos os dias. Um dia a casa estava cheia; no outro, pela manhã, os filhos acordavam e não encontravam uma só cadeira para sentar. No rosto dela, porém, o ar feliz de quem acabara de fazer a mais bela das trocas.

R - Um centro por uma mesa; um abajur por um conjunto de panelas; um criado-mudo por um rádio que falava; um cabide por uma cômoda e, por fim, uma cadeira de balanço por um bom descanso. Lembro que embora fosse somente música embalada pelo clarinete dele, o sujeito baraúna e verdadeiro, cantava pouco. Desafinada. Mas, talvez por ter um coração maior do mundo, cantava como nenhum outro coração jamais cantou. Seu nome: Francisca Bezerra de Almeida.

T - Quando começava a entoar, cheio de ginga, escandindo as palavras pelos incisivos, o Café Soçaite do Jorge Veiga, ninguém tinha mais dúvidas: era ele. Ele gostava, desde jovem de freqüentar barzinhos. Na hora de pagar a conta - sempre fazia questão de dividir - abria a carteira velha de couro, amuleto e companheira, escolhia cédula que parecia guardada de véspera, e puxava-a pelo rabo, como costumava dizer, para que nenhum olho gordo visse o seu tesouro. Os cigarros Hollywood, aqueles do sucesso, que fumava aos montes, eram uma de suas marcas registradas. A mania de retirá-los do maço, como chamam por aí, ou carteira, como chamamos por aqui, com os seus filtros para baixo, pura questão de higiene, o distinguia de todos os outros fumantes.

O - O seu francês ("Só digo enchanté, muito merci, all right") carregado do sotaque parahybano, debochado e só felicidade; e um inglês mais debochado e feliz ainda, era a sua cara" cagada e cuspida", como diria a mãe adotiva - e por ele adotada - que o chamava de Léo. Ele, por sua vez, carinhosamente, a chamava de Chiquinha. Seu nome: Leonardo de Almeida.

De - Ele era uma espécie de Robin Hood do seu – e meu – bairro de Jaguaribe. Defensor dos fracos e dos oprimidos. Embora não raras vezes achasse que tudo poderia ser resolvido "na porrada", no fundo, lá dentro onde a criança dorme, era um meninão, o amigo que muitos gostariam de ter. Pois, todos sabiam, que uma vez amigo, sempre amigo.

Almeida - Viveu pouco, mas tão intensamente; brigou tanto pela vida em defesa do que acreditava; fez tanto barulho no silêncio da Mata do Buraquinho, conhecido resto de Mata Atlântica que temos nestas plagas, que quase virou uma lenda no bairro. Há anos foi morar noutra cidade. Saindo da vida às pressas, sem tempo sequer de pegar o chapéu e pagar a conta do bar, nunca soube o quanto era amado por aqui. Seu nome: Antonio Bezerra de Almeida, apelido Tota.

Em tempo: Heráclito de Almeida é o meu pai; Francisca Bezerra de Almeida a minha mãe; e Leonardo de Almeida e Antonio Bezerra de Almeida, o Tota, meus irmãos. Hoje, morando em outra cidade, e vestindo roupas tecidas com as nuvens mais brancas.

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    *Humberto de Almeida é escritor.


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