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» Humberto de Almeida publica o blogue EU PLURAL // Este autor escreve às quintas-feiras

» JOÃO PESSOA, 21 de agosto DE 2008

O Melhor de Um País Que Se Deseja Sério é Um Horário Eleitoral de Graça!



Acabei de assistir a estréia do horário eleitoral e pago pelos pobres eleitores analfas e alfas do nosso verde e amarelo. E se alguém discordar do que vou dizer, das duas uma, ou perdeu o bonde e esperança ou, mais fácil ainda, o senso de humor que todos brasileiros deveriam ter, mas, infelizmente, mal-humorados que andam, deixaram nesse bonde que acabei de falar.

Confesso que nunca sorri tanto e tanto só ri. E, sorrindo, recomendo a todos que sofrem dessa doença chamada de mal-humor e acham que presença de espírito só acontece em sessão espírita. Assistindo a uma hora desse programa humorístico, com certeza, o mal-humor será curado logo na primeira cara do candidato com cara de ex-presidiário que aparece defendendo a "onestidade (assim mesmo, como você poderá ler lobo abaixo) e a honra", essa, escrita com agá, porque o "caracterista" escreveu errado.

Outra coisa interessante que não poderia deixar de registrar no fundo dessas retinas cansadas do vazio das propostas dos nossos candidatos às prefeituras e as nossas casas mirins – botem mirins nisso –, foi justamente isso: nunca vi legendas tão cretinas e pessimamente escritas. Aqui e alhures, não vi um só candidato, unzinho apenas, que tenha percebido, por exemplo, que se eu escrevo Humberto com agá, no tempo passado, embora nada tenha a ver com esse sujeito presente, obrigatoriamente, logo abaixo da foto do candidato, também teria que existir essa agá que não é só dele. E disse dele, do tempo não, mas de Humberto.

E a culpa, como culpa não coloco nos operadores de caracteres de nossas televisões inimigas dessa última flor do Lácio cada vez mais inculta e, nesse caso, nada bela, pois os seus diretores e editores estão lá pra isso mesmo, pelo menos para isso, também não vou jogar nos analfas candidatos e poucos alfas oportunistas. Todos podem bater no peito, repetindo por minha culpa, minha própria culpa. "Moro a anos nesse bairro e daqui há pouco direi o que vou fazer por ele". Foi uma das legendas dos analfas candidatos belo-horizontinos. Trocando em miúdos: se ele mora há anos nesse bairro, bem que poderia em nome da educação de vizinhos e outros mais distantes, sair dele. Os meus dois leitores também concordam?

E as figuras?! São pegajosas, escorregadias, feitas em série, desmanchando-se como figuras do Salvador Dali. Enquanto um diz que crê em Deus e tem certeza de que Ele o levará àquela Casa ou Prefeitura, dispensando o voto do pobre eleitor ausente, pois ele não é tão idiota para ficar olhando a sua cara em preto branco na tela colorida de sua televisão, o outro, espécie de boneco de ventríloquo que fala com um sujeito, quase sempre sem bons predicados, pelas costas, talvez o pai, um guarda-costas talvez, sorrindo do boneco controlado por ele, Collor perdido no tempo e no espaço, pede-nos pra não deixa-lo só.

E assim o circo vai sobrevivendo. Todos pedem uma oportunidade para representar este escriba, analfabeto de pai e mãe que nunca foi, como se ele precisasse de um analfabeto desse como seu representante. Pedem que confie nele, enquanto, perdendo o seu tempo e olhando nos seus olhos, ouvindo as suas palavras e sabendo da existência do ventríloquo por trás – deles, claro -, percebe o escriba que não confiam nele.

O nosso – mais deles - Horário Eleitoral tem a grande virtude de afastar o povo das novelas globais e as fofocas do Leão Lobo. Mas, se dependesse deste escriba que só não vota em branco porque prefere outra cor, sem quaisquer discriminações, podendo ser o amarelo, vermelho ou azul, tanto faz, o Horário Eleitoral seria por todo o ano. E verdadeiramente gratuito. E se fosse pedir muito, pelo menos duas ou três vezes por semana.

Em tempos de horário eleitoral, se os meus dois leitores não descobriram, parem e descubram: o povão, afastado da televisão, aprende muito mais. Podem anotar: daqui a dez anos os mais novos escutarão dos mais velhos (claro), que por aqui existiu um horário televisivo em que todos faziam questão de assistir vestindo roupa de palhaço.

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    *Humberto de Almeida é escritor.


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