Tantos Dias de Caça, Hoje Foi o do LOBO: Sem Fausto Wolf o País Fica Mais Podre (e Pobre) Ainda!
Fotos: arquivo
"Meu caro 1 Berto,
Puta que pariu, como escreves bem! Parabéns pelo belo texto. Podias ter elogiado um pouco mais o personagem central (do seu livro O Nome de Deus), mas fica para outra. Outra coisa: não há vantagem alguma em ser como sou pois eu não poderia ser diferente. Seria outro e deste outro não falarias com tanta bondade. Agora manda um e-mail para a seção de cartas do JB com cópia para o caderno B dizendo que eu sou do cacete!
Um abraço comovido do Fausto"
Perdão, leitores, mas não poderia deixar de abria estas mal-traçadas com palavras tão comoventes e sinceras desse que foi para este escriba um exemplar do melhor que existe na espécie humana... "Não há vantagem em ser como sou, pois eu não poderia ser diferente. Seria outro e não falarias com tanta bondade..." Desculpem, leitores, mas não poderia deixar de repetir o retrato dele que ele me deixou.
Seu eu disser aos meus dois leitores descrentes que andam ante tantas sacanagens e mentiras desses ex-crotos que continuam prometendo mundos e os fundos de suas mulheres, eles não acreditarão. Porém, mesmo assim, sem esperar, com todo o respeito à crença deles, vou dizer sem nenhum medo de não ser acreditado: senti a morte do Fausto Wolff, ontem, como fui informado logo cedo por um companheiro de batente, como se um irmão tão querido quanto todos os outros que tenho tivesse sacaneado comigo e partido sem um só aviso (fazia um bom tempo que não recebia notícias suas), deixando-me sozinho na mesa de bar, meu copo cheio e o dele pela metade.
Se vocês não sabem, embora para muitos eu tenha contado, vez por outra este escriba mantinha contato com esse jornalista, o "melhor jornalista do Brasil", como brincou o Ziraldo para depois confessar os milagres que somente ele era capaz de fazer com a palavra escrita, um puto cidadão e sujeito tão honesto quanto o meu pai (imaginem a comparação). Esse contato , para os que não sabem, vem de muito longe, desde o distante e saudoso jornal O Pasquim que era a sua cara e, por tabela, a do meu colunista social preferido, o Nataniel Jebão.
Lembro que a minha admiração pelo homem e jornalista Fausto Wolff foi imediata. Não precisei ler uma segunda matéria sua. Se a primeira a gente nunca esquece, como costumo lembrar do sutiã nos peitinhos juvenis, viciado que fiquei nas coisas que ele escrevia, nunca consegui – tanto que até hoje lembro – esquecer as que viriam depois. Fausto Wolff, como fora um dia, também, o Tarso de Castro, mas visto por outra fresta, era a minha referência pasquineira.
Era comum chegar numa mesa de um bar, bar, doce bar, e o colega perguntar "qual foi a última do Fausto Wolff?" E tome textos decorados como sem fossem poemas do meu Quintana preferido. A identificação com os mais fracos e desvalidos; a revolta por sentir-se impotente diante de um sistema que todos os dias chutava para fora da casa de seus ideais e ele, como o sapo da história, bem de mansinho, dissimulado, voltava para o mesmo lugar; o humanismo em suas histórias que me faziam, depois da leitura, triste e cada vez mais solidário com ele. Era um humanismo sem pieguices. Pois bem. Tudo isso fez com que este escriba, menino ainda e começando a exercitar os dedos nas teclas da velha Olivetti, escrevesse que um dia quando crescesse gostaria de ser o Fausto Wolff. Bem que tentei. Mas, depois de crescido, para a minha felicidade, descobri que por mais que crescesse Fausto eu jamais seria. O consolo? Nenhum outro também.
A morte, no caso do Fausto Wolff, assim como foi no caso de outros meus foi uma pura sacanagem da Indesejada das Gentes. Ora, tanta gente por ai merecendo pegar o trem das sete antes de ele e desses meus outros. Por que não levar antes esses ex-crotos, safados, sacripantas e, se não bastasse, tão dispensáveis quanto quase todos esses políticos de plantão para quem a desonestidade é uma carta do baralho que carregam escondida sob as suas mangas sujas, e a vergonha apenas uma palavra inventada pelo Lupicínio Rodrigues para completar mais uma de suas sofridas canções.
A nossa amizade, se é que vocês me permitem dizer assim, como falei em dos parágrafos aí de cima e que espero que um dos meus dois leitores tenha lido, vem lá do velho e verdadeiro O Pasquim. E conto a história, como a história ocorreu. Comentando uma matéria sua – "sinto muito, mas vou torcer contra" - em carta enviada à redação do Pasquim - naquele tempo não existia o imeio – e contrariando as expectativas de um colega que acabava de chegar do Rio de Janeiro, dizendo que Fausto recebia centenas de cartas por semana e a do escriba seria apenas mais uma, o Lobo, para minha surpresa, respondeu:
- "Porra, Humberto (1 Berto ainda não havia nascido), me deixaste emocionado! Estamos juntos! Quer dizer que os meus livros (os seus livros ainda eram poucos, mas, especificamente, Matem o Cantor e Chamem o Garçom, O Acrobata Pede Desculpas e Cai, Sandra na Terra do Antes e o Dia em Que Comeram o Ministro) não chegam por aí? Aguardas, irmão, vou enviar tudo que tenho!". E, para a surpresa aumentar, acrescentava um "Disso faço questão!".
Todo feliz com a resposta, uma alegria sem comparação para um jovem que sonhava um dia ser o fausto Wolff, ainda veria as suas mal-traçadas publicadas em sua página, lá no cantinho, entre outros fãs. E na íntegra. Lembro ainda que nesse dia, ele que não conseguia ficar um só dia sem escrever, não escreveu.
O Pasquim chegava por aqui as sexta e não raramente aos sábados. Sendo um hebdomadário, palavrinha feia que só me lembra aquela espécie com cara de camelo e que aprendi lendo o Pasquim, claro, era para toda a semana. E nessa semana Faustão aniversariava. Apenas prefaciou a sua página, escrevendo mais ou menos assim: "Depois de tantas porradas na cara, sem tirar a cara da janela, não vou escrever. Vou agradecer, publicando esses presentes que recebi". E, todo orgulhoso, fechava com um "Estão vendo como vale a pena?!" Claro, Fausto, valeu!
Os meus dois leitores poderão ficar entediados com as histórias que ainda contarei sobre esse sujeito do tamanho do mundo e quase amigo - um dia me convidou para encontrá-lo na redação de O Pasquim. ("aparece por aqui, porra!"). Mas, infelizmente, naqueles tempos, era impossível deixar a minha doce Província das Acácias. Por tudo isso e com data vênia, em outros dias, sem a emoção da notícia, contarei outras histórias que sei dele. Do último imeio - não mais carta - que ele enviou para este escriba, ao seu – meu - orgulho de ter vivido numa época em que Fausto Wolff era vivo e serviu de exemplo de como se viver com dignidade.
Dizer o quê? O de sempre: Que a terra lhe seja o mais leve possível.
Normain Rolland: "Todo o homem verdadeiro deve aprender a ficar só no meio de todos, a pensar sozinho por todos – e, sendo necessário, contra todos".
Christian Morgenstern – "Sou um homem e me crucifico – eu homem – ao deus em mim – que não sou eu".
Bertolt Brecht – "E porque o homem é um homem, será que pode comer alguma coisa, por gentileza?"
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*Humberto de Almeida é escritor.
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