JOGOS ONLINE CRIAM REALIDADE PARALELA
Fotomontagem: Iza Calbo
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Sem citar nomes para não fazer propaganda e outras pessoas começarem a fazer uso do brinquedo. A partir daí, vamos ao que interessa: a cada dia cresce o número de pessoas interligadas pela maior rede do mundo, a Internet. Disso, todos sabem. Mas além das salas de bate-papo, MSN e coisa e tal, existem os jogos online. Um deles – são vários, mas este me chamou a atenção – impede a pessoa de se mover do lugar. Se sair, morre.
Além disso, permite que o jogador converse com outros jogadores. A cena é horripilante: a pessoa sentada, com fone no ouvido, falando, falando... – Olha o monstro atrás de você. Sai logo daí fulano. Hei cicrano, meu PC travou; agora fui desconectado; Êta vão me matar... E segue neste contexto.
A outra pessoa que convive com o jogador e não tem por hábito usar tal brinquedo, diz: - Fulano dá uma força aqui, porque estou terminando o trabalho. E aí ouve: - Espera, se sair agora eu morro. Transcorridos mais de dez ou 30 minutos, depois da pessoa ocupada já ter feito o macarrão, por exemplo, o jogador sai do recinto e comenta: - Pó foi mal, mas eu ia morrer se saísse antes. Diga aí, do que você precisa?
Claro, a vontade é de dizer “eu preciso que você morra”, mas, obviamente, isso remete ao jogo. Então, melhor calar e engolir o sapo. Esta situação é baseada em fato real. É impressionante observar como a Internet pode ser ao mesmo tempo interessante e alienante. E muito mais viciante do que a TV vale ilustrar. O jogador deixa de assistir ao que gosta, porque os amigos marcaram com ele para ir até determinada cidade pegar alguns itens. É mole?
O jogador mencionado nesta crônica é o responsável por guiar os outros. Além disso, é nômade. Ou seja, vive se deslocando de um lugar para outro, vagueia sem destino. E faz isso sentado quase 10 ou 12 horas numa cadeira. Não é de arrepiar? Pois é. Há um nômade aqui por perto. Aliás, bem perto. Mais precisamente no quarto ao lado. São horas e horas de peregrinação sem dar um passo.
O pior da história é a parte em que você critica a pessoa/jogador por este sedentarismo. Logo vem respostas do tipo: prefere que eu vá para rua? Queria que eu estivesse usando drogas? Você só reclama porque eu estou sem emprego, não é? Ora, como alguém pode arranjar emprego se não sai de casa? Como pode saber de uma vaga se não pode sair do jogo para pesquisar nos classificados online? De fato é uma situação para a qual não se tem resposta.
Ou se diz a verdade e aí começam as brigas e alegações. Ou se cala e entra naquela velha seara do se pedir, espere; se quiser, faça. Atualmente a saída tem sido um estado de abstração total. O jogador sai de um lugar ao outro durante horas conversando com outros “colegas” de passatempo e, cansada de argumentar, fico também diante do computador fazendo trabalhos pagos, morrendo de vontade de sair mundo afora. Nômade no sentido literal da palavra.
Mas, enquanto isso não acontece, o jogador viaja e eu (perdão pelo emprego da primeira pessoa) me mato... De trabalhar! Tudo bem, ele também morre às vezes e tem itens roubados, fatos que lhe rendem a fúria. Serve-se de consolo, fazer o quê? “Eu to pagando...”.
Ora, seu menino, me deixe quieta! Fui. Mas continuo por aqui e, graças aos deuses, ainda consigo diferenciar o real do virtual. Meu mundo tem contas (muitas) a pagar, horas de esforço mental empregadas num trabalho cansativo, bocas para alimentar e, ainda por cima, gatos para dar comida, trocar a água, limpar o cocô...
Enfim, meu mundo é um pesadelo e o tal jogo faz parte dele, embora pelo menos esta parte pudesse ser detelata, excluída, removida, caso o jogador a tal coisa se dispusesse. Porém não acontece e a vida segue. Um passo por vez e, para alguns, sem sair do lugar.
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*IZA CALBO é jornalista (aposentada) e escritora
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