MINHA PEQUENA ESTRELA
Arte: Francci Lunguinho
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Minha pequena estrela lá está, sempre, diamante de luz intensa no estojo de veludo negro da noite.
Olho-a sempre. E sei que ela me olha. Não há novidade nisso: esse tipo de diálogo de olhares, é improvável ou impossível – menos entre os que se amam. E eu amo minha pequena estrela.
É para minha diminuta estrela meu último olhar de cada dia. Contemplando-a, em sua beleza luminosa e simples, relativizam-se todas as opacidades das mazelas da vida, das contrariedades e desilusões diárias. Essa luz resgata a esperança, que também é pura luminosidade, projetando luz sobre nossa alma, quando ela ainda consegue acreditar que o desejável poderá se tornar possível e se converterá em realidade.
Essa estrelinha geralmente me sorri quando sorrio para ela. Mas é sensível o bastante para me devolver um brilho mais contido, quando vê que meus olhos não lhe enviam o brilho da alegria, mas apenas o lusco-fusco da tristeza que obscurece qualquer olhar desencantado. Aí, a gentil e terna estrelinha me manda somente faisquinhas de luz. E então sua meiga insistência geralmente me faz sorrir, e desanuvia meu olhar.
Ora, dirá você, cético leitor, que há apenas imaginação e talvez loucura nesta minha conversa de trocar olhares e amar uma estrelinha. E perguntará como faço se chove, ou se simplesmente as nuvens encobrem minha pequena estrela.
Pois saiba, incrédulo leitor, que minha pequenina estrela continua lá. Assim como continua sempre lá o sol intenso mesmo nas manhãs e tardes chuvosas; ou como permanecem nas árvores as flores exuberantes que o outono pensa que fez tombar. Duvida? Pois pergunte se isso não é verdade às crianças, aos poetas e aos loucos. Eles talvez nem lhe respondam. Talvez apenas sorriam, com a certeza inabalável dos que são cúmplices raios de sol, das flores, dos bichos, das águas cristalinas, do vento, dos sons suaves...
Somos fidelíssimos um ao outro, eu e minha estrelinha. Todos os verdadeiros amores são fiéis. A infidelidade é o sinal inequívoco deixado quando o amor já se foi, já voou com suas asas de ânsia na direção de outras pessoas ou paragens onde seja acolhido de braços abertos.
Minha estrelinha, sei, se diverte quando a sabedoria científica dos astrônomos a reduz à condição de “corpo celeste”, sem luz própria, sem vida. Minha estrelinha sabe que é, em verdade, pura alma – e almas são, por natureza, luminosas, na sua realidade diferente, que é etérea, mas luminosamente ofuscantes, pelos menos para os que enxergam com o coração, não apenas com os olhos amplificados pelos telescópios.
Minha pequenina estrela me contempla, agora, lá de seu jardim de amplidão que chamam “Via Láctea”. Se bem conheço sua alma alegre, está sorrindo ao me ver transformando nosso amor de olhares em dizeres, aqui neste pálido, pobre e impreciso amontoado de palavras, num texto que fica muito aquém de nosso diálogo de todas as noites.
Compreensiva, quem sabe um pouco envergonhada, mas entendendo esta minha necessidade de partilhar nossa história sem palavras, mas plena de comunicação amorosa, minha estrelinha talvez esteja mandando, em lampejos de luz, uma mensagem aos céticos, aos insensíveis, ou mesmo aos que não se rendem aos apelos do próprio coração.
O recado da minha estrelinha deve ser para que cada um desses procure sua própria estrela. Para que, paciente e perseverantemente, tente iniciar um diálogo diário – ou pelo menos semanal, mensal ou anual – com sua estrela. Porque assim terá, nessa amizade celeste, sua fonte permanente de luz amorosa e sua reserva de esperança luminosa num mundo cada vez mais mergulhado nas trevas do desamor.
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J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br
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