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Mendes, RJ, 04.06.10 |

Carta aberta a Francci Lunguinho

Caro Lung,


Luciano e Francci
 
   

Em primeiro lugar vem a indagação: porque carta “aberta”? Não sei ao certo. Pode ser pelo fato de tratar a missiva em questão de assuntos de interesse não-particular e para publicação. Pode ser pelo fato de nossa relação (heterossexual) ser “aberta”. Pode ser pelo fato de eu ter pensado agora em como você sempre se mostra uma pessoa muito aberta – e isso foi desde o começo, em nossos primeiros contatos pela Internet, e em nossos raros contatos não-virtuais no Amarelinho tomando chope ou no Odeon naquela sessão de curtas, também acompanhada de chope. E, por falar em curtas, minha vida com produção audiovisual está parada, por motivos de força maior, ou de forças menores, ou de fraqueza mesmo. Tenho feito muitas coisas e isso traz efeitos colaterais: um deles o fato de ter que deixar de fazer outras tantas, e, entre elas se põe o meu momentâneo desligamento com o audiovisual. Dos curtas, só vem à minha cabeça agora a idéia de que a vida é curta, embora não caiba num curta metragem. Música? Também estou parado. Literatura? A idéia, só a idéia, por enquanto, de um romance. E as crônicas? Pois é. Esta que te escrevo é um pedido de desculpas por estar tanto tempo sem publicar no nosso querido Crônicas Cariocas.

A vida é curta – Na bela apresentação que escreveu para o meu livro (intitulado Coleção, com textos meus escritos entre janeiro de 2007 e janeiro de 2010 para o nosso Crônicas) você mencionou o fato que eu ter chegado na casa dos quarenta anos, e da minha perigosa inclinação em dizer a verdade. Talvez tuas palavras tenham matado a cobra e mostrado pau. Talvez eu viva numa confortável vida perigosa. Todo conforto é aparente. Assim como todo perigo é relativo. Um dos grandes perigos que temos em nossos dias de vida é morrer. A idéia da morte faz-nos lembrar que a vida é curta. Curta e com tanto pra se fazer, e essa angústia de acharmos que estamos fazendo tão pouco e que não podemos ter alcance histórico para visualizar mudanças palpáveis e que o tempo está passando como um trem bala. Ver o trem passar é algo muito bonito, beirando o hipnótico. Eu passei quase toda a minha vida pertinho de uma ferrovia e sei dessa experiência que é ver as coisas passarem. A ferrovia em questão é a Dom Pedro II, que liga o Rio a São Paulo, passando por Japeri, Mendes, Volta Redonda, Barra Mansa e Resende. Agora não passa mais trem de passageiro, mas antigamente havia trem de luxo até, com restaurante e tal, e eu, menino, via aquele espetáculo, as mesinhas e abajures dentro dos vagões. Com a privatização, agora só passa minério e derivados – o que não deixa de ser de alguma forma bonito. Andei ultimamente ouvindo umas músicas d’Os Paralamas do Sucesso – que amo e os vi nascer e transformarem-se numa das melhores coisas da música mundial de todos os tempos, com sua genial mistura de rock com música caribenha. Nesse carnaval fiz uma pequena entrevista na rua com o Bi Ribeiro e ele disse como os Paralamas “praticamente” começaram a tocar aqui na pequena cidade de Mendes. Eu o chamei, na entrevista, de “um dos melhores músicos do Brasil e do mundo”. Exagero? Provavelmente. Entretanto, o Sting falou pra ele, Bi, quando do show do Police no Maracanã – com Paralamas abrindo –, que ele era “o melhor baixista que já vira tocar”. Portanto, acho que não fui desonesto. Se o Sting não foi, eu não fui. E sei como o Bi estraçalha no baixo. Há uma canção linda deles, dos Paralamas, que diz “o trem da juventude é veloz, quando for olhar já passou”. Então lembrei agora que eu fui, originalmente, colunista de música deste portal. Que gosto de trem e de música.

Se falo de música nesse momento, vou então aproveitar e dizer o que anda me interessando, mais ou menos. Vamos lá:

Them Crooked Vultures, a nova banda formada pelo lendário baixista do Led Zeppelin, John Paul Jones e pelo grande Dave Grohl (Foo Fighters, e ex-Nirvana). Gostei muito não. Talvez falta de costume. Melhor me parece ouvir coisas menos batidas do Led – como o pouco badalado álbum Coda, por exemplo, pra matar saudade.

Mallu Magalhães. Esta aqui, todos os meus amigos detestam. Eu gosto bastante. Mais pela grande ousadia e originalidade – coisas mundo prezadas no mundo da música pop, pra quem gosta muito de música – do que por uma pretensa ou esperada “grande qualidade musical”. A música “Versinho de Número Um” é fantástica. Recomendo.

Lady Gaga. O que dizer desta? Como diria Sílvio Santos, “minha filha gostou”. Bem. Se minha filha gosta, isso me obriga a, pelo menos, dar uma olhada. E não é que a mulherzinha é mesmo uma fera...

Achei o fim da picada o meu grande Bob Dylan gravando aquele disquinho de Natal. Mas ele já pode fazer o que bem entender. Sua contribuição ao planeta já foi dada.

Conheci, tardiamente, o trabalho solo de Eddie Vedder para o filme Na Natureza Salvagem (Into The Wild). Este, minha companheira está amando. O trabalho de Vedder é, de fato, belíssimo. E ultra simples, aliás. E quanto ao filme? Ah, o filme... Peço perdão aos deuses do cinema por não ter assistido antes (o filme, dirigido por Sean Penn, é de 2007). Para economizar palavras: Na Natureza Selvagem é uma das mais belas coisas produzidas pela raça humana.

Rogério Skylab. Esse cara está me deixando muito confuso. Eu conhecia dele “Matador de Passarinho”, sobretudo. E mais um ou outro trecho de música cantada por ele em alguma das célebres entrevistas veiculadas no programa do Jô Soares. Acho a figura do cantor uma das mais hipnóticas – e já usei essa palavra hoje – do mundo artístico. Agora resolvi estudar o cara. Isso mesmo: estudar. E junto com ele veio o interesse pelo livro História da Loucura, de Michel Foucaut. Quem é Rogério Skylab? Um louco? O que é loucura? Saca o dilema que o rapaz está me trazendo? Eu, que sinto-me também meio louco... É muito interessante a experiência de ouvir uma música em que preciso dar o pause no aparelho quando alguém chega perto. Eu não me lembro da última vez que fiz isso na vida. A música de Skylab me traz gargalhadas, mas às vezes também um desconforto que me faz pensar que ele não merece ser ouvido. E não sei se recomendo.

Rockbitch. Já gostei bem mais de pornografia. Hoje meu contato com isso é quase zero – sou um chefe de família. Mas depois que vi um documentário no canal HBO sobre a banda, me interessei. Nesta semana um amigo vai me passar material em DVD, com shows das meninas, algo que me interessa bastante. Do que se trata? Rockbitch é uma banda de lésbicas que se apresentam semi-nuas e fazem sexo no palco enquanto tocam: tudo ao mesmo tempo. Bem. Esta banda eu não recomendo.

***

Meu caro amigo. Como vê, comecei com a intenção de uma carta-crônica e acabei te enviando algo sobre música. Estou tentando aproveitar da melhor maneira esta vida tão curta. E a melhor maneira nem sempre é a do caminho do gozo. Minha criação artística anda estagnada. Mas tenho estudado um pouco, e isso cansa. E tenho ganho meu pão suado neste mundo em desordem, como é mostrado no filme Koyanisqaatsi e sua trilogia (que, juntamente com outro filme, Baraka, tenho o prazer de sempre indicar para as pessoas mais queridas – que são normalmente pessoas que, como eu, querem um mundo melhor). A propósito... Você conhece esses filmes?

                                                                       Um grande, aberto e apertado abraço,
                                                                                                       Luciano.

 

P.S.: Em anexo vai uma foto atual minha pra colocar no site. Se é que isso tem alguma importância.

***
SOBRE O AUTOR: *LUCIANO FORTUNATO é músico e web-escritor.
[[
BLOGUE OU SITE PESSOAL:recantodasletras.uol.com.br/autores/lucianofortunato ]]
[[ CONTATO: fortsilveira@yahoo.com.br ]]
 


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