A NUDEZ VIRILHA ABAIXO
Quando Fernando Sabino imaginou seu “homem nu”, estarrecido com a própria nudez no corredor ante a porta do apartamento fechada atrás de si, tinha início um dos melhores momentos do conto rápido nacional. A imagem da conseqüente vulnerabilidade daquele homem é inesquecível. Não há leitor que não se aflija. Nem tanto pela falta de sorte do personagem, mas por pura solidariedade que se torna latente. A agonia dele é a nossa possível agonia.
Por que a nudez incomoda tanta gente?
Nascemos nus, reproduzimo-nos nus (quase sempre) e na morte, já não importa o que vestimos.
Outro dia, na tevê, vi a atriz Lucélia Santos declarar que quando ficava nua diante das câmeras, estas lhe cobriam. Vestiam-lhe de arte. Já, para a revista, a pose era outra e a grana alta justificava. Gostei da objetividade da segunda opção. Estava inaugurada a nudez técnica.
Nessa altura do campeonato, a nudez dos sexos já não oferece mistérios. Os biquínis viraram fios, o soutien entrou em extinção e nada mais espanta, frontalmente ou não.
Minha maior experiência com o tema aconteceu num verão pós-carnaval em Búzios, em que acabei na praia de Abricó (nome perigosíssimo para praia de nudismo), um recanto de naturistas, exóticos praticantes do nu sem ser artístico.
Éramos dois casais, relaxando nas imediações da referida praia, protegida por alguns morros, ignorando a que ela se prestava (a praia). Nossos amigos estavam com o filho adolescente, o Felipinho, que sabia das funções escusas de Abricó e, a todo instante, insistia para que alguém o acompanhasse até lá. Os pais, obviamente, rechaçaram a idéia, e minha mulher avisou do ridículo que seria eu ficar pelado sem mais nem menos. Não me lembro bem, mas explicou seu raciocínio, como algo a ver com poluição visual, que fingi não entender.
Diante da troça de todos, resolvi desafiar a maioria e surpreender, me oferecendo a acompanhar o jovem. A princípio, todos riram, inclusive o Felipinho. “Você nuzão, tio? Duvido!”. Tentei argumentar, lembrando Pero Vaz de Caminha sobre os índios, na famosa carta ao rei: “andam nus, sem cobertura alguma, não fazendo o menor gesto de cobrir ou mostrar suas vergonhas, e nisso são tão inocentes como quando mostram o rosto”. Concluí que a maldade estava nos olhos e nos rostos dos outros, e decidi que não teria mais vergonha das minhas vergonhas.

Ninguém me levava a sério. Mas Felipinho já estava mais animado. Via um fio de esperança a cada latinha de cerveja entornada.
Mais algumas cervejas e bravatas, levantei-me de supetão e anunciei que rumaríamos às entranhas de Abricó. Todos imaginavam que eu blefava, que daria meia-volta, que era só uma ameaça. Mas, eu me decidira mesmo. Para alegria de Felipinho.
Mal sabia o que iria me acontecer.
Para se chegar à praia naturista, tem-se que escalar alguns morros, num caminho íngreme e irregular, recheado de fendas, espinhos, cactus e coco de cachorro.
No meio do trajeto, por areias desérticas, um dos pares da minha sandália havaiana arrebentou e tive de seguir descalço, quando pude constatar que o caminho era de seixos, pedras, e que a areia não era quente, e sim escaldante. Comovido com meu martírio e diante da ameaça de iminente recuo, Felipinho cedeu-me as suas.
Passado o primeiro obstáculo, defrontei-me com o próximo desafio: uma fisgada na virilha direita, em razão dos muitos declives e barrancos que faziam com que abríssemos as pernas das mais improváveis e elásticas maneiras.
Cheguei ao local, depauperado e mancando visivelmente. Mas fingi nobreza. Tirei a sunga, camisa e adentrei triunfante, como um Radamés de ópera marchando em Aída.
Felipinho vinha atrás, extasiado. Era muita mulher bonita, um time de garotas belíssimas e folgazãs. Soubemos que se tratava de uma agência de modelos sueca que estava em peso na praia. Pentelhos à milanesa, seios pululantes e bundas rubicundas de brotoejas, num festival escandinavo e pornográfico. Procurei o controle, afinal a maldade deveria vir dos olhos e rostos dos outros. Felipinho, nem aí com dilemas, não se continha e disfarçava toda sua paudurescência, agachando-se na areia.
Ao meu lado, um senhor quase calvo, com rabo-de-cavalo e possivelmente depilado tomava sol com sua prótese peniana para cima, em busca de bronzeamento pélvico total. Mais esdrúxulo, difícil.
Um ambulante que vendia biscoitos de polvilho me surgiu de repente, com seus bagos balançando bem na minha testa. Foi o bastante para cair na realidade e começar a convencer Felipinho de que era melhor sairmos dali. Mas ele não tinha ouvidos para mim, e só vistas para uma modelo loura que, deitada bem defronte, abria e fechava suas longas pernas. A moça tinha uma bela tatuagem no tornozelo, mas Felipinho nem notou.
E assim seguimos mais um tempo: ele torcendo para as horas pararem e eu para que não houvesse ninguém conhecido ali e, é claro, que o vendedor de biscoitos não voltasse.
Como tudo cansa, até close genital, Felipinho aceitou irmos enfim embora. O trágico foi que minha virilha piorara. Houve um certo momento no caminho de volta, espremido entre um barranco e uma pedra, que pensei em pedir resgate. Minha vida por um helicóptero.
Nem sei como chegamos.
Naquele momento, pude compreender toda a dramaticidade rodriguiana, quando a dançarina de inferninho Geni (Darlene Glória) via toda a sua nudez ser castigada. Estou contigo, Geni, e não abro. Até porque até hoje minha virilha direita nunca mais foi a mesma.
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*Marcio Paschoal é escritor (www.marciopaschoal.com)
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