GARDEL, QUEM DIRIA, ACABOU EM NILÓPOLIS
Nunca havia entendido bem a razão de tamanha arrogância dos argentinos, notadamente os portenhos.
Em princípio, a rivalidade futebolística poderia explicar a flagrante animosidade imperando entre nós e los hermanos.
Depois de dez dias, a passeio e de férias, em Buenos Aires, pude concluir que o tal complexo de superioridade argentino tinha alguma lógica. A cidade, mesmo um pouco sucatada, ainda mantém a aura de cultura e o charme de seus cafés e restaurantes.
Piazzola e Maradona são unanimidades, assim como o bife de chorizzo e o vinho Malbec.
Palermo Chico, Lãs Cañitas, San Telmo, a baixa Recoleta, os alfajores, os sorvetes da Pérsico e o Teatro de lo Nudo são espetaculares. Mas, o que mais cativa e impressiona é a quantidade de livrarias da cidade. Praticamente uma em cada quarteirão. A do Atheneo, em Santa Fé, no interior de um anfiteatro, é para deixar qualquer brasileiro cabisbaixo. A quantidade de livros, a beleza e o serviço deixam-nos com a certeza de que o investimento em educação constrói a alma de um povo. E não é uma mera questão de dinheiro, pois não está sobrando la plata por lá. Alguma coisa, certamente, está fora da ordem.
Adorei a cidade, e não foi só pelo favorecimento cambial (um real vale dois pesos) e pelo táxi muito barato. Buenos Aires é um local prazeroso e bonito. Sua arquitetura clássica e seus jardins remetem a uma origem européia da melhor tradição.
É certo que existem os larápios e os espíritos de porco, como em todos os lugares. Depende da sorte da cada turista. Mas a violência ainda se encontra em níveis toleráveis.
Os argentinos há muito já trocaram Búzios por Salvador. Eles me falaram, impressionados e assustados, que quase não crêem nas informações sobre as mazelas do Rio de Janeiro.
Isso me faz entender a triste realidade que nos assola, cariocas reféns de feras fortemente armadas e condenados à insegurança absoluta: uma coisa é a miséria associada aos índices de violência urbana, outra é a sanha descontrolada podendo atingir os cidadãos em qualquer hora ou lugar.
Indo para o aeroporto, madrugada portenha, para pegar o avião de volta ao Rio, cidade vazia, nenhum carro pelas avenidas, e o motorista respeitando todos os sinais de trânsito. Ou seja, parava calmamente no vermelho. E eu, apreensivo, olhando para os lados, como se algum assaltante drogado fosse aparecer. Paranóia pura.
O carioca está ficando com medo da própria sombra. Pudera, pois essa sombra costuma andar com fuzis e escopetas em bondes e afins.
Perdeu, otário. Perdió, cabrón.
Só saindo daqui podemos avaliar o inferno que nos rodeia e ameaça. E que soluções podemos esperar das autoridades (in)competentes? O que está sendo feito para evitar esse círculo vicioso (ou viciado)? Nada.
Definitivamente, alguma coisa está fora da ordem.
Em Buenos Aires, o povo saindo de uma baita crise, ainda respira e toma seu café com medias lunas nas mesas dos Tortonis da vida. E por aqui? Se você senta numa mesa de um restaurante qualquer e pede um cafezinho para ler seu jornal, está seriamente arriscado a ser enxotado pelo garçom. É a ganância dos comerciantes. Uma estupidez colossal. E o pior é que já nos acostumamos a isso. Anestesiados e confusos. São pequenos sinais de violência e obstruções de cidadania. Todo dia, em cada bar, em cada prédio, em cada casa.
Os tangueiros são tristes e amargurados a cantar a dor e a rejeição. Já os sambistas exaltam a vida e a alegria. Definitivamente, alguma coisa está fora da ordem. Neguinho da Beija-Flor deveria escutar mais Gardel.
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*Marcio Paschoal é escritor.
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