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» Marcio Paschoal escreve aos domingos. Acesse o site do autor: www.marciopaschoal.com

» RIO DE JANEIRO, 23 DE MARÇO DE 2008

PROCURA DIREITO QUE ACHA

Desde pequeno fui um menino desconfiado. Uma daquelas crianças que questiona por onde o velho Noel entra em casa, se no apartamento não tem chaminé. Ou por outra, como é que ele consegue atender aos pedidos de todas as crianças do mundo, andando naquele trenó de segunda, puxado por velhas e pachorrentas renas.

Em compensação, lá em casa todos já desconfiavam da precoce consciência social do garoto, pois eu não simpatizava com a idéia de que algumas crianças pobres fossem ficar a ver navios em vez de bolas, carrinhos e bambolês. Para mim aquele senhor de barbas brancas tinha pinta de elitista.

Enfim, logo descobri a farsa, ficando acordado até mais tarde e checando o que já desconfiava, ou seja, que o papai Noel era o lá de casa. Pior, no meu caso, era mamãe Noel mesmo.

Hoje vejo o bom velhinho com ares de pedófilo (ele, não eu). Por isso, não deixo meus filhos sentarem no colo dele para tirar fotografia. Era só o que faltava.

Assim também foi com o bicho-papão, que cedo concluí tratar-se de chantagem ficcional de adultos sem imaginação. Coisa de tarado. Se bem que eu morria de medo de uma boneca de olhos esbugalhados que minha irmã guardava no armário dela.

Isso tudo para lembrar que uma história dessas mal contadas eu engolia sem problemas. Era na época da Páscoa, quando procurava pelos ovos espalhados e escondidos pela casa. Nunca questionava como o coelhinho conseguira entrar lá em casa, se ele também dera chocolate para as crianças pobres, logo, o que me interessava de verdade era achar as delícias e me empanturrar. Naquele tempo não tinha problemas de engordar nem de colesterol.

Talvez em razão disso, sempre tive atração por coelhos. Seja com molhos de maçã e batatas cozidas, ou no vinho à moda francesa.

Sem contar que Coelho costuma dar sorte. Haja visto nosso badalado  internacional Paulo, que vende livro até no Irã. Jamais entenderei esse mistério. Deve ser coisa de coelhos e cartolas.

Porém nunca tive nenhum pé de coelho. A explicação pode ser simples e tem sua lógica. Se aquele coelho tivesse sorte não teria perdido a pata.

Resumindo, acho que a Páscoa está em mim como um toque batismal. Não seria à toa meu sobrenome de Paschoal. Uma época que me traz boas recordações. Um tempo no qual todos podem recordar um pouco da pureza dos sentimentos e da gula sem pecado.

Io no creyo en los conejos pero qui los hay, hay..
É só procurar direitinho. Feliz Páscoa.

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    *Marcio Paschoal é escritor.


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