PROCURA DIREITO QUE ACHA
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Desde pequeno fui um menino desconfiado. Uma daquelas crianças que questiona por onde o velho Noel entra em casa, se no apartamento não tem chaminé. Ou por outra, como é que ele consegue atender aos pedidos de todas as crianças do mundo, andando naquele trenó de segunda, puxado por velhas e pachorrentas renas.
Em compensação, lá em casa todos já desconfiavam da precoce consciência social do garoto, pois eu não simpatizava com a idéia de que algumas crianças pobres fossem ficar a ver navios em vez de bolas, carrinhos e bambolês. Para mim aquele senhor de barbas brancas tinha pinta de elitista.
Enfim, logo descobri a farsa, ficando acordado até mais tarde e checando o que já desconfiava, ou seja, que o papai Noel era o lá de casa. Pior, no meu caso, era mamãe Noel mesmo.
Hoje vejo o bom velhinho com ares de pedófilo (ele, não eu). Por isso, não deixo meus filhos sentarem no colo dele para tirar fotografia. Era só o que faltava.
Assim também foi com o bicho-papão, que cedo concluí tratar-se de chantagem ficcional de adultos sem imaginação. Coisa de tarado. Se bem que eu morria de medo de uma boneca de olhos esbugalhados que minha irmã guardava no armário dela.
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Isso tudo para lembrar que uma história dessas mal contadas eu engolia sem problemas. Era na época da Páscoa, quando procurava pelos ovos espalhados e escondidos pela casa. Nunca questionava como o coelhinho conseguira entrar lá em casa, se ele também dera chocolate para as crianças pobres, logo, o que me interessava de verdade era achar as delícias e me empanturrar. Naquele tempo não tinha problemas de engordar nem de colesterol.
Talvez em razão disso, sempre tive atração por coelhos. Seja com molhos de maçã e batatas cozidas, ou no vinho à moda francesa.
Sem contar que Coelho costuma dar sorte. Haja visto nosso badalado internacional Paulo, que vende livro até no Irã. Jamais entenderei esse mistério. Deve ser coisa de coelhos e cartolas.
Porém nunca tive nenhum pé de coelho. A explicação pode ser simples e tem sua lógica. Se aquele coelho tivesse sorte não teria perdido a pata.
Resumindo, acho que a Páscoa está em mim como um toque batismal. Não seria à toa meu sobrenome de Paschoal. Uma época que me traz boas recordações. Um tempo no qual todos podem recordar um pouco da pureza dos sentimentos e da gula sem pecado.
Io no creyo en los conejos pero qui los hay, hay.. É só procurar direitinho. Feliz Páscoa.
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*Marcio Paschoal é escritor.
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