Lenine e o “soul” da natureza
No novo disco Labiata, cantor volta a emudecer ouvidos atentos
Uma das melhores coisas na música em 2008 é o CD Labiata, de Lenine. Dono de um dos mais impressionantes acústicos MTV, o músico pernambucano, que tem seu nome inspirado no líder comunista Lênin (o pai de Lenine era um comunista entusiasta), ressurge, após ter musicado o espetáculo Breu, do Grupo Corpo, com um trabalho inspiradíssimo, cheio de experimentalismo – o que nunca deixou de ser uma marca do cantor.
Outro dia eu e um amigo, o violonista Ricardo Espírito Santo, discutíamos Lenine. Enquanto eu dizia que sua música é, ao contrário do que muitos pensam, melódica e harmonicamente extremamente simples, o amigo ponderava: calma aí, o que Lenine faz com a mão direita não é pra qualquer um. Nisso eu tive que concordar. Mas aquela era uma conversa de músicos, portanto não estávamos discutindo as letras. Pois é. E quem na MPB dos últimos 15 anos foi capaz de dar voz e alma a instigantes letras como ele o fizera? Sozinho, como na eterna “Jack soul brasileiro”, ou em diversas parcerias acertadas, versos 100% inteligíveis e assimiláveis, que sempre soam sofisticados. Qual a magia que consegue equilibrar essas duas forças em Lenine? O simples dentro do sofisticado. O sofisticado dentro do simples...
Labiata é apenas mais um disco de Lenine. E, convenhamos, isso não é pouco. É um sinal de fôlego da boa música brasileira. Um sopro de filosofia e poesia do nosso recurso por excelência renovável : nossa música. E já que falo em recursos renováveis, a proposta de Labiata é que se volte o olhar para a natureza. O próprio título do álbum é uma referência à orquídea cattleya labiata, espécie bastante ocorrente no litoral brasileiro. O próprio Lenine é um amante de orquídeas, mantendo um orquidário com mais de 2000 plantas em seu sítio em Araras, próximo a Petrópolis – alguns sons do disco foram mesmo gravados dentro do orquidário. Letras como as das canções “A mancha”, “Lá vem a cidade” e “É fogo” são claramente ecológicas, mas não de uma militância piegas, e sim, carregadas de simbolismo.
O trabalho, que recebeu o toque final no estúdio Real World, de Peter Gabriel, em Londres, conta em sua base com os músicos Pantico Rocha, na bateria; Guila, no baixo; e Jr. Tostoi na guitarra: músicos que já há alguns anos tocam com Lenine nos palcos, e mostram aqui, mais uma vez, técnica e sensibilidade irrepreensíveis. Pontos digníssimos de destaque no álbum são as participações dos cariocas do Plap (leia-se Pedro Luiz e a Parede), que tocam nas faixas “A mancha” e “É fogo”; as duas parcerias com Arnaldo Antunes em “O céu é muito” e “Excesso exceto”; a interessante participação vocal, nesta mesma faixa, do roqueiro China (que foi integrante do grupo Sheik Tosado e há pouco lançou seu disco solo); e a surpresa da letra de Chico Science em “Samba e leveza”. A letra manuscrita fora entregue por Chico à sua irmã Goretti 3 dias antes do acidente que matou o cantor. Goretti procurou Lenine, e o entregou a letra, pedindo a ele que a musicasse. Provavelmente Chico ficaria muito satisfeito com o resultado, o que nós podemos conferir em mais este personalíssimo trabalho de Lenine.
As faixas de Labiata :
- - “Martelo bigorna” abre com categoria o CD. Em ritmo sincopado, os sons bastante sintetizados servem bem como introdução ao álbum. Colocar-se a faixa mais estranha abrindo um disco já é uma tradição. Nisso Lenine é tradicional.
- - “ Magra” traz o Lenine de sempre, com uma de suas batidas típicas, num violão especialmente equalizado, executado de forma seca sem que deixe de ter um certo suingue. A letra começa com os versos “moça/ pernas de pinça / alta / corpo de lança / magra /olhos de corsa/ leve/ toda cortiça”.
- - “Samba e leveza” segue a linha tão em voga, e por alguns tão combatida, de reconstrução do samba. Arranjo a ser apreciado com especial atenção. Se há samba de “raiz”, aqui Lenine segue em caminho contrário, subindo até a “flor”. A letra é do saudoso Chico Science.
- - Em “A mancha” Lenine faz bem o que sempre fez : uma soul music com sotaque brasileiríssimo. A letra ecológica avisa “a macha vem mais rápido que lancha”. Participação dos músicos da banda Pedro Luiz e a Parede.
- - “Lá vem a cidade” é densa e delicada, executada em ritmo de samba. O título se refere, tratado na letra de forma dramática, ao deslocamento da cidade em direção à serra, com a aguardada elevação do nível do mar. É o Lenine, mais uma vez, porta-voz da ecologia. A canção, feita em parceria com Bráulio Tavares, é uma das melhores da carreira do cantor: “eu vim plantar meu castelo/ naquela serra de lá/ onde daqui cem anos vai ser uma beira-mar”, diz a letra.
- - Em “O céu é muito”, parceria com Arnaldo Antunes, as guitarras ganham destaque, num arranjo absolutamente rock’n’roll. E rock pesado, diga-se de passagem. Algumas bandas de rock nacional precisariam ouvir esta música.
- - Na mesma linha rítmica que consagrou Lenine em outras músicas como “Jack soul brasileiro”, com seu suingue absurdamente contagiante, “É fogo” traz tudo aquilo que ele sempre fez de melhor, tendo-o consagrado. A letra é mais uma com preocupações ecológicas, trazendo versos do tipo “o estrago vai ser pago pela gente toda/ é foda/ é fogo/ é a vida em jogo”. Mais uma participação da Plap.
- - “É o que me interessa”, executada tristemente em tom menor, lembra bastante, pelo estilo da levada, é verdade, a canção “Paciência”. Mas não é auto-plágio. Longe disso. É só mais uma bela balada com o carimbo de Lenine.
- - “Ciranda praieira” é especialmente linda. Introdução com arranjo de cordas sob uma letra tipicamente nordestina, para depois cair num ritmo bem cadenciado, bateria forte e repleto de sons interessantes de guitarra e ruídos estranhos.
- - “Excesso exceto” carrega mais um pouco da veia rock de Lenine. Arranjo com guitarras extraordinariamente bem gravadas. Letra contundente de Arnaldo Antunes, “querer sem objeto/ voz sem alfabeto/ enchendo um corpo já repleto/ o excesso exceto/ o etc e todo o resto/ do chão ao céu / da boca ao reto”. Bela participação vocal de China.
- - “contra, encontros, a contração/ a era, o eros, a erosão/ a fera, a fúria, o furacão/ o gomo, o cosmo, a comunhão/ a comunhão / o pré, a prece, a procissão/ o pós, o póstumo, a possessão/ a cor, a corte, a curtição/ amor, morte, a continuação/ a continuação”. Esta é a letra de “Continuação” que fecha o CD.
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*Luciano Fortunato é músico e web-escritor
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