PESO DAS IDEIAS
Durmo e acordo pensando na obrigação de escrever uma crônica. Passei os últimos dias tentando ter ideias que fossem merecedoras de registro. Nada aconteceu! Foram diversos temas, mas nenhum conseguiu sequer se fixar na tela do computador (que dirá numa politicamente correta folha de papel reciclado). Fui em frente e pensei em roteiros de viagens, ex-namoradas problemáticas, encrencas de família, interpretações inacreditáveis dos protagonistas de novelas, declarações de políticos ou técnicos de futebol, situações tristes que acabam rendendo boas risadas... Enfim, nada capaz de se constituir em um bom argumento para apresentar a pessoas minimamente atentas.
Sigo, ainda, sem saber o que fazer. Ora, tudo bem que escrever não é fácil, mas assim também já é demais. Com certeza, não deve ser impossível criar textos vivazes, ágeis, demonstrativos de sua cultura e observação do mundo, divertidos, poéticos...
E eu?
Meu texto, se é que ele pode ser chamado assim, não traz nenhuma novidade, não tem nenhum traço de vivacidade nem alegria. Na verdade, creio que, se vier a sair, impressionará pela absoluta falta de objetivo. Mais: pelo mais completo vazio existencial! É isso: meu texto é o Nada! E como falar sobre o inexistente, invisível, imponderável, imensurável? Será que todo texto reflete o íntimo de quem o escreve ou será que o vazio está em mim?
Agora, começo, realmente, a me preocupar. Não é possível! Isso pode se transformar num problema sério. Se bem que a única coisa séria que eu queria que não fosse medida, palpável, visível é o meu peso. Está aí algo que definitivamente me assusta. Cada dia mais! Nem falo em sair para jantar. Só vou quando é para beber. Não sei, deve ser porque a idéia de beber não pese tanto. Ah, sei lá! Esse peso da vida não deveria mais me assustar facilmente. Mas é incrível como as balanças me ameaçam. Tenho certeza que me perseguem. Sinto que quando me veem cruzar as ruas, riem do meu formato de pingüim e se comunicam como se estivessem arquitetando um plano macabro.
Outro dia, pensei ter ouvido uma piadinha:
- Oi, boneco, sabe que você é o bibelô ideal pra geladeira lá de casa?
Comecei a falar sobre essa questão desesperadora de pesos e medidas e quase me esqueci de que preciso escrever uma crônica e não tenho ideias. Já sei: acho que vou falar de poesia ou de música. Sei não...
Fico pensando, pensando, pensando... e a única coisa que me ocorre é que, sentado aqui na frente do teclado, só faço aumentar meu peso. Socorro! Eu preciso escrever alguma coisa rapidamente. Necessito me concentrar em algo merecedor do meu esforço. Quem sabe se eu escrever a receita de um petit-gateau? |