O PESADELO DE DRUMMOND
“Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”. Certamente essa máxima não passou pela cabeça do incauto que bolou e confeccionou a escultura de bronze, em tamanho natural, que reproduz a figura do poeta Carlos Drummond de Andrade sentado, num dos bancos do calçadão de Copacabana. Como moradora do bairro, passo quase que diariamente por ele e sempre me causa um enorme desconforto. Vejo-o em cada situação que nenhum mortal aguentaria. Invariavelmente, um pensamento mórbido me toma: e se a alma do poeta estiver presa na estátua? Lúcido, como sempre, fica lá sozinho, exposto à chuva, sol e companhias indesejáveis.
Aprisionado, sem poder esboçar nenhuma reação, o pobre poeta ganha por dia milhões de beijos melados e posa para fotos com gente de todas as idades, sexo e etnias. É certo ver Drummond integrando um grupo de turistas ou estudantes com aquela eterna pose encurvada. Sentadinho, olhando para a rua, porque ninguém teve a sensibilidade de colocá-lo olhando para o mar, o que seria bem mais agradável. Carros e pessoas entram e saem da sua visão periférica fazendo tudo passar vagarosamente. Isso quando consegue enxergar, porque periodicamente roubam-lhe os óculos, deixando-o cegueta por um bom tempo.
À noite, a coisa piora um pouco. Não pelos travestis que sentam no colo esfregando a bunda no velho e fazendo graça, mas sim pelos aspirantes a poetas que insistem em ler seus versos toscos em voz alta no seu ouvido. Teve um bêbado que, não satisfeito em ler seu poema de vinte páginas com voz ininteligível e arrastada, ainda levantou e urinou nas costas do poeta, usando-o de “cabaninha”.
Entra e sai ano e está ele lá, levando cascudo de turma de adolescentes: “Aê, Drummond...”, mijadas de cachorros no pé e cantadas de velhas desesperadas. Mas no final, termina sempre sozinho.
Em dias de sol escaldante, comuns no Rio, a temperatura do bronze vai aos píncaros. É a alma presa no inferno. Quem foi que achou que, só porque ia diariamente tomar um solzinho pela manhã, significava que ele queria ficar ali para sempre? Existem outras estátuas pela orla, mas não em situações tão desconfortáveis. O Ari Barroso desfruta da eternidade sentado, tomando um chope num tradicional bar da boemia carioca. E o Ibrahim Sued? Está lá, numa boa, na sombrinha, porta do Copacabana Palace, só curtindo o frenesi dos ricos e famosos. Não é justo.
Porém, nada como um dia após o outro e com um morto a ser homenageado no meio.
Não é que apareceu uma estátua do Dorival Caymmi lá no final da praia, onde ficam os pescadores? Largaram o baiano lá, de pé e ainda por cima, carregando um violão.
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