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Rio de Janeiro, 17.05.09 |TODAS AS CRÔNICAS
CRÔNICA Nº 17 - POR JORGE TEIXEIRA*

UMA QUESTÃO DE TEMPO

Gosto de chegar na hora aos compromissos. Esse papo de dizer que músico marca ensaio às quatro da tarde, chega cinco e meia, leva meia hora para arrumar o instrumento e ainda fuma um cigarro antes, não cola comigo. Acho que é porque tenho um exemplo tão bacana quanto engraçado. Meu dentista, Dr. Cooper, não se cansa de tentar ensinar aos pacientes que horário é coisa muito séria. Quando preciso de seus préstimos, chego, como sempre, com 10 ou 15 minutos de antecedência. Só que isso pra ele é considerado quase um atraso.

Invariavelmente, sou sempre o primeiro a aparecer nos ensaios, nas gravações, nos shows. Não ligo. Levo na esportiva, porque se for me aborrecer, não trabalho mais. Mas o que impressiona é que tem gente que defende o atraso. E faz até tese pra isso. É o caso do meu primo Tuzim. Ele é percussionista. Além disso, é doutor em psicologia e um companheiraço de conversas e de Maracanã. Ele é um legítimo herdeiro do grande Tim Maia: chega sempre atrasado, quando vai! Foi assim, inclusive, no dia que defendeu sua tese: “A Desobrigação Temporal Como Fator Fundamental Para a Saúde Mental.” Ele chegou vinte minutos atrasado porque precisava caminhar para fazer alguns ajustes nas ideias. Não é preciso dizer que ele foi aprovado com louvor. A Academia adorou tudo que ele disse. Principalmente, quando, no fim da apresentação, ele tirou o relógio, jogou no chão e sapateou em cima. Foi aplaudido de pé!

Quando acabou tudo, fui cumprimentá-lo e marquei para comemorarmos outro dia porque tinha uma gravação e não queria me atrasar. O Tuzim sorriu e disse que era pura perda de tempo querer chegar antes. E me pediu:

- Faça uma experiência! Vá por mim. Garanto, por comprovação científica, que se você sair vinte minutos depois do horário que deveria, ainda vai chegar primeiro no estúdio. 

Concordei. Afinal, estava diante do mais novo doutor do pedaço. 

Saímos da UERJ e entramos no primeiro bar que tinha cerveja em garrafa. Segundo o Dr. Tuzim, eu tinha tempo para comemorar.  

Na hora de ir embora, me despedi do meu querido amigo e me mandei pro estúdio. Estava meia hora atrasado. 

Cheguei no estúdio, olhei tudo em volta e não havaí chegado ninguém. Antes mesmo de tirar o baixo da caixa, liguei pro Tuzim. 

- Cumpadi, você está certo. O problema sou eu que ando adiantado! 

Ele deu uma estrondosa gargalhada e disse: 

- Da próxima vez, antes de sair, tome mais uma. Sempre dá tempo!

***
SOBRE O AUTOR: *JORGE TEIXEIRA é ator.
[[ Leia também as crônicas de Marcio Paschoal aqui no Crônicas Cariocas ]]
 


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