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Rio de Janeiro, 24.05.09 |TODAS AS CRÔNICAS
CRÔNICA Nº 19 - POR CLAUDIA MARTELOTTA*

UMA AULA DE MATURIDADE

Um dos momentos mais estranhos da minha vida foi quando descobri que meus pais trepavam. Lembro-me bem da hora em que a ficha caiu e me subiu um frio na barriga que imediatamente se transformou numa retumbante cara de nojo. Desde então, evitei o assunto.

Até que um dia alguém comentou. “Nasci no Rio, mas fui concebida em Paris. Minha mãe voltou grávida da viagem de núpcias”. Falou com tanta naturalidade e orgulho que me comoveu. Que pessoa bem resolvida! Tá vendo? Todos os pais trepam. Nós somos a prova cabal disso. Não tem nada de mais. Já estava mais do que na hora de rever meus conceitos. Numa curiosidade involuntária e corajosa, pensei. E eu? Onde será que fui concebida?

A investigação começa em papai e mamãe fazendo papai-e-mamãe, que é pra não dar nó na cabeça. Mas aonde? Não posso, na altura dos acontecimentos, perguntar à minha mãe uma coisa dessas. Certamente me responderia, “Ah, não lembro, minha filha, faz muito tempo” ou me colocaria pra correr a bengaladas exigindo respeito.

Sou raspa de tacho, temporã e com um monte de irmãos. Casa cheia, entra-e-sai, empregadas, avós, primos, vizinhos. Típica família italiana. A que horas afinal rolou a cópula? Será que meu irmão tinha razão? Realmente fui achada na lata de lixo? Já estava me vendo uma sementinha criando tentáculos abraçando um pedaço de algodão úmido.

Instalou-se um grave problema de identidade. Apelei então para as fotos. Coitada de mim. Bebê lindinha cercada de irmãos banguelas, ora no colo de um, ora no colo de outro ou no meio deles e invariavelmente com dois dedinhos saindo da moleira, os malditos chifrinhos que insistiam em me colocar. Não dava mesmo para imaginar um minuto de paz com aquela corja.

Só posso mesmo ser fruto de uma rapidinha. Talvez uma trepada furtiva, atrás do velho armário ou de pé, encostados na porta para impedir entradas indesejáveis ou numa sacanagem boa durante o banho. É muito estranho imaginar mamãe e papai trocando intimidades eróticas, segredinhos e risinhos sexuais, cúmplices na lascívia. Tão cheios de tesão um pelo outro que seriam capazes de driblar um exército de capetas, os olhos atentos dos serviçais e a repressão sexual de vovô e vovó. O negócio estava indo longe demais. Decididamente não dá pra fantasiar minha mãe tão piranha e meu pai tão intrépido.

A despeito do exemplo de maturidade da minha amiga quase parisiense, cheguei à confortável conclusão de que vim ao mundo peladinha, pendurada numa fralda e no bico de uma cegonha.

***
SOBRE A AUTORA: *CLAUDIA MARTELLOTA é atriz.
[[ Leia também as crônicas de Marcio Paschoal aqui no Crônicas Cariocas ]]
 


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