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Rio de Janeiro, 05.07.09 |TODAS AS CRÔNICAS
CRÔNICA Nº 26 - POR CLAUDIA MARTELOTTA*

MACHUCA, MACARRÃO

Foi na minha infância e adolescência, quando passava as férias na roça, na casa da minha avó e circulava livre, leve e solta sob os olhares desatentos dos meus irmãos mais velhos, que dei início a minha cultura cinematográfica. Na cidade, havia um cinema que era a grande atração das noites. Todo mundo ia. Não havia essa de censura. Assistíamos aos filmes impróprios com a maior facilidade. Tanto que, quando fiz dezoito anos, a minha filmografia alternativa já era vasta.

A coisa funcionava da seguinte forma: a sessão começava às oito e de dois em dias passava um filme diferente. Eles compravam uns dez filmes, nos estilos variados, que se repetiam no período do veraneio. Não tinha muito critério, a principio, mas influenciavam, e muito, em nosso comportamento, no gosto musical, nas brincadeiras e no jeito de falar.

Estávamos sempre lá. Quando o filme era “próprio”, íamos, em bando pelos atalhos escuros, munidos com lanternas nos autointitulando de “O Incrível Exército de Brancaleone”, com direito a musiquinha e tudo. “Branca, branca, branca, Leon, Leon, Leon”, caminhávamos e cantávamos indo ao encontro dos “Trinity”, do “Convidado Bem Trapalhão” ou do “Harry, o Mão Leve”.

Quando o filme era “impróprio”, a estratégia era outra. Discretos, nos separávamos e pegávamos carona de carro com os mais velhos. Foi assim que, aos quinze anos, assisti “Laranja Mecânica” e confesso que fui movida apenas pelo sucesso da bolinha preta que perseguia as perseguidas das mulheres peladas do filme. Mas fiquei chapada. Esse negócio de censura, às vezes tem a sua lógica. A exibição de “2001, Uma Odisséia no espaço”, foi histórica. A sala lotada, num silêncio atípico onde nem as cadeiras duras de madeira rangiam. No final da sessão, o comentário era um só: “que filmaço!” Eu concordei com tudo e fiz cara de inteligente, pena que só entendi anos depois, quase em 2001... Não estava preparada para aquilo.

Gostava mesmo é de tocar terror assistindo a pérolas da pornochanchada. Sexo deixava a gente inquieto. Era muito engraçado ver a Adele Fátima, desfilando seu rabão, estrelando “A História que as nossas babás não contavam”; ou Helena Ramos, com cara de mulher frígida, em “A mulher objeto”; a nossa Sonia Braga, estrela de Vila Sésamo, se revelando muito piranha como quem não quer nada em “Dona Flor e seus dois maridos” ou muito piranha como quem quer tudo em “A dama do lotação”.

“Machuca, Macarrão” era o bordão que inventaram para gritar em momentos estratégicos dos filmes. O desabafo era em estéreo (ou seria histérico?), cada momento um gritava de um ponto diferente, no tempo certo da comédia e liberava o nosso frisson em gargalhadas.

Os westerns eram decididamente os nossos preferidos. “Sete homens e um destino” e “Era uma vez no Oeste” eram tudo de bom. Apresentavam homens corajosos, com suas montarias e acompanhados de trilhas sonoras arrebatadoras. “Fuí uí u, uan uan uan, fuí uí u, uan uan uááá, fuí uííí, uan uan uan uan...” essa onomatopéia é capaz de ser reconhecida até pelo cavalo de Clint Eastwood  em  “O bom, o mau e o feio”. Sem falar na paixão secreta por Giuliano Gemma que me fez estar presente em todas as sessões de "O Dólar Furado" e "Uma pistola para Ringo".

As histórias exibidas naquela pequena sala fazem parte das minhas referências e nada me deixa mais triste do que pensar nos cinemas das cidades de interior fechados e transformados em sabe-se lá em quê.

***
SOBRE A AUTORA: *CLAUDIA MARTELLOTA é atriz.
[[ Leia também as crônicas de Marcio Paschoal aqui no Crônicas Cariocas ]]
 


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