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Rio de Janeiro, 19.07.09|TODAS AS CRÔNICAS
CRÔNICA Nº 33 - POR BRUNO SAMPAIO*

Ok, pessoa, você venceu

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mais uma cobardia!

Depois de muito tempo, reli o famoso poema em linha reta de Álvaro de Campos, meu heterônimo favorito de Fernando Pessoa, cujo trecho que transcrevi acima me deu vontade de satisfazer o desejo do poeta e confessar algumas infâmias e cobardias que, de tempos em tempos, voltam a cruzar meu pensamento, trazendo sempre um desconforto que mando de volta às masmorras de onde teimam em sair. São coisas aparentemente banais, um gesto aqui, uma frase infeliz ali, e desconheço a razão pela qual ficaram marcadas para sempre na memória. Mas tenho certeza que vão me acompanhar por toda a vida.

Minha avó materna, um doce de criatura que me amava muito e que fugiu com um circo aos cinco anos de idade, é quem primeiro surge, me dando banho, fazendo umas massinhas de farinha com que eu brincava horas sobre a pequena mesa de centro da sala da casa dela. Meu nariz costumava sangrar sem qualquer aviso, e ela tinha uma simpatia infalível para essas horas: um anel de linha de costura vermelha amarrada ao meu dedo mindinho. Um belo dia achei que aquilo era coisa de criança, sem cabimento para um menino de oito anos como eu. Recusei com alguma grosseria o pequeno feitiço de vovó, e nunca vou esquecer a expressão dela, parada com a linha nas mãos, e tão decepcionada com minha atitude que nunca mais correu a buscar na caixa de costura um alívio para minhas hemorragias. Se os espíritas estiverem certos, adoraria pedir perdão a ela do lado de lá.

Entra em cena Chaninho, o grande gato amarelo que morava conosco na casa de vila que então eu dividia com meus pais e minha irmã do meio. Chaninho era brabo, volta e meia metia os dentes ou as garras em alguém da família, e às vezes sumia durante dias, voltando todo lanhado das brigas que os gatos têm que travar para perpetuar seu código genético. Um dia Chaninho estava na área de serviço, bem embaixo do buraco que cortava todos os pavimentos da casa de três andares. Eu, no terceiro, dei o clássico assobio de chamar gato e, quando ele olhou para cima, disparei uma grossa cusparada bem a prumo de sua cabeça. Acertei em cheio, e imediatamente fiquei arrasado ao vê-lo sacudir a cabeça, sem entender o que acontecera. Tempos depois ele agonizava debaixo de um carro na vila. Fui eu quem, a pedido de mamãe, o tirei de lá. Já estava meio velhinho e não resistiu a um último embate com um gato da vizinhança. Tinha na anca uma grande pelada, que parecia feita à máquina. Só não morreu nos meus braços porque eu o coloquei no chão.

Vejo agora meu pai, cheio de manias, e com o péssimo hábito de repetir o mesmo chiste eternamente. Estávamos na garagem tirando as pranchas de surf de cima do carro, um fusquinha caindo aos pedaços, quando ele mandou de novo a velha piada segundo a qual eu era um sovina contumaz, e na hora de dividir qualquer coisa, diria ao meu colega de ondas: você não quer, não é mesmo? Já meio irritado, mandei que ele mudasse o disco, que aquela piada já não tinha a menor graça. Era a pura verdade, mas o jeito com que ele me olhou fez com que, até hoje, eu desejasse de ter ficado de boca fechada naquele dia.

Chamei minha mãe de gorda na frente dos meus amigos; desanquei minha irmã sem a menor piedade, falando coisas terríveis, completamente bêbado; taquei giz no nerd CDF de óculos de fundo de garrafa só porque todo mundo fazia isso; por vergonha de meus amigos adolescentes, fingi não reconhecer uma menina gordinha e negra em quem tinha tentado dar uns beijos, sem sucesso, na noite anterior.

Gosto de pensar que estou melhorando como pessoa, que não estou passando pela vida sem aprender nada, mas é um treinamento que nunca acaba. Outro dia, depois de levar uma fechada de um táxi, acelerei para emparelhar com o sujeito e gritar um bom filha da puta! com toda a força do meu diafragma. Felizmente, antes disso vi o motorista, que devia ter mais de setenta anos, mirrado, de óculos, com a maior cara de vovô do bem, e que dirigia com a cara colada ao vidro. Ele não tinha me visto.

***
SOBRE O AUTOR: * BRUNO SAMPAIO só faz coisas terminadas em ista: é roteirista, guitarrista e, de uns tempos pra cá, violoncelista. Com o tempo, quem sabe, pode vir a se tornar um cronista.
[[ Leia também as crônicas de Marcio Paschoal aqui no Crônicas Cariocas ]]
 


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