Apegos
Um dia, fazendo terapia, me dei conta de que era apegada às coisas. Naquela sessão me lembrei como sofri quando me desfiz de um tênis, um Rainha, já sem cor. Aí, me recordei das histórias que construí com ele, como as corridas que dava no calçadão do Leblon ao Arpoador, as caminhadas nas manhãs ensolaradas que fazia.
Depois me dei conta de que as coisas banais estavam relacionadas ou eram, na verdade, as grandes questões da minha vida. O dia a dia, aparentemente tedioso, carregado de muxoxos e “Ai que saco!”, estava repleto de significados e referenciais que me faziam ser a pessoa que sou. A vida nos faz deparar com disparates assim. São aqueles paradoxos que nunca conseguimos explicar. O apego é uma afeição por algo ou alguém e pressupõe empenho para mantê-lo ativo em nossa vida. É um jeito teimoso de querer, uma insistência absurda para deixar tudo do jeito que está. Será que é por isso que vivemos em círculos e sempre voltamos ao mesmo ponto? Será o ponto bifito de Lacan?
No livro dos espíritos está escrito que vivemos uma vida inteira para aprender algo. Eu passei dos cinquenta e ainda não sei fazer uso da liberdade a que tenho direito. Há quem não tenha generosidade no coração; há quem não consiga ter esperança ou solidariedade. Talvez alguns apegos sejam os tais carmas, são os desafios que nos fazem boçais, aos quais precisamos nos desapegar. Mas, paradoxo, sem o apego não chegaríamos ao terceiro dia de vida. Nos apegamos ao seio materno, aos amigos, aos vasos sanitários, aos travesseiros, aos perfumes, até às manchas do teto. Quando viajamos, cuidamos de levar a escova e a pasta de dente. Já viu o desacerto que um esquecimento desses pode causar? Um dia desencravei uma unha do pé e senti que a falta da dor estava me causando um vazio. Foda, né? |