O Lugar certo nas horas incertas
Precisando preencher minhas noites insones, procurei amigas notívagas e com elas fui conhecer as festas das noites cariocas.
Encontrei algumas mulheres inteligentes e, sobretudo, espertas, que veem a vida sob um prisma muito especial. A linguagem, os seus valores e comportamento, totalmente desconhecido para mim. Um mundo onde aprendi uma nova maneira de encarar a vida, que me ajudou a lidar com as perdas e a descobrir valiosos ganhos.
Elas usavam saias muito curtas, com meias que faziam suas pernas parecer bonitas e escondem as marcas do tempo. Muitas já recorreram a inúmeras cirurgias plásticas.
No primeiro baile que fui, meu modo de vestir e agir era destoante; parecia uma caipira assustada, insegura e com total falta de jeito.
Minhas amigas foram conseguindo parceiros para dançar. Quanto mais depressa fossem convidadas, mais admiração e inveja causavam.
As mais populares naquele ambiente procuraram ajudar-me pedindo aos velhos conhecidos que me levassem para a pista. Mais tarde descobri que estavam sendo generosas, pois a competição era acirrada.
Entre uma dança e outra, tomamos diferentes tipos de drinques.
Um homem com quem dancei acompanhou-me até a mesa e falou sobre os seus netos. Senti-me finalmente no meu mundo. Respondi mais que depressa: “Eu tenho cinco: uma menina e quatro meninos”.
Imediatamente senti um pontapé, sob a mesa. Assustada, olhei para a companheira que estava na minha frente e ela me devolveu um olhar severo e um balançar de cabeça. Não demorou muito, chegou perto de mim e esbravejou: “Você esta doida? Na noite não se tem filho e nem netos.
Onde já se viu tanta burrice?”
Assim, tive a primeira lição sobre a noite, num salão de baile: as mulheres não têm família. Aos homens é permitido falar nas esposas que ficaram em casa, nos filhos e netos e até nas mulheres que já passaram por suas vidas. Descobri também homens de variados tipos e personalidades interessantíssimas.
Conheci alguns, sem dinheiro, que viviam em quartos alugados; os aposentados de bancos ou militares eram considerados bons partidos e ao menos dividiam as contas. Outros comiam e bebiam, depois saiam de fininho, deixando a dívida para a incauta que teve a gentileza de convidá-lo, ou aceitar sua companhia. Alguns casados, outros procurando companheiras para se encostarem em suas casas.
Os que sabem rodopiar e rebolar no salão, com passos coreográficos, têm grande cartaz. Na maioria das vezes trabalham em escolas de dança, são corretores de imóveis ou vendem carros. Frequentam essas festas até especialistas, como bombeiros e eletricistas.
Divertem-se toda a noite, depois convidam a mulher para ir a suas casas – quando as têm – ou se insinuam para ir ao apartamento delas. E para preencher o vazio de suas camas, contentes, elas pagam as contas e os taxis, quando não têm carro.
Na festa seguinte, aqueles mesmos homens com quem dormiram apenas as cumprimentam indiferentes ou até fingem não as conhecerem.
Existem também os românticos, que se dizem apaixonados à primeira vista e propõem um relacionamento firme, ao perceberem que a mulher pode oferecer vantagens materiais.
Numa conversa longa e séria com um desses homens, percebi total desprezo por “essas mulheres que vivem na noite”. E eu perguntei: “com quem vocês dançariam, conversariam ou iriam para a cama, se elas não existissem?”
Alguns romances verdadeiros podem acontecer nesses lugares, mas é muito raro, e sabem por quê? Aqueles que estão em busca de companhia, desconfiam sempre daqueles que são encontrados no lugar adequado. |