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Rio de Janeiro, 02.05.09 |TODAS AS CRÔNICAS
CRÔNICA Nº 57 - POR SIMONE ALVES*

A Via Cigana

Uma vez eu li que a vida era mudança, transformação. A partir daí, venho tendo alguns sonhos recorrentes (ou seria uma saudade?) com um grande bando, montando e desmontando tendas. Um jeito de ser meio cigano, meio fugitivo (de quê?) e andarilho. Todos amigos, juntos, num repetitivo ciclo. Cada dia um novo lugar, uma nova paisagem, novas emoções, apesar de novos riscos.
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Poderia afirmar que a verdadeira vida é quando realidade e sonho se confundem. Elvis Presley cantando com Elton John no Maracanãzinho, Gandhi achando graça de Lula, Garrincha driblando Dunga numa Copa qualquer, Marilyn e Britney Spears dançando com Joana D’arc na beira da fogueira, filmadas por Almodóvar.

Não tão longe da verossimilhança, a loucura às vezes pode ser considerada a atitude mais sã. Na mesma linha alternativa, o suicídio visto como uma eutanásia particular, pode ser uma fuga a se considerar. Se vidas e reencarnações são prováveis, deem-nos outra chance. O ser humano, a princípio nômade, em busca do fogo, descobriu as graças do sedentarismo seguro e postiço. Daí a  agricultura, a propriedade privada, as casas de pedra e as tais raízes. A voz vigente é “a minha propriedade, a minha casa, esses são meus filhos, meu marido (monogamia primária), meus pertences...”. Nos armamos, cada um de nós, para nos defendermos uns dos outros, eis a face perversa da razão.

Nessas casas de pedras (ou túmulos) “vivemos”. Tentamos tudo fixar. Ansiamos parar o tempo através de rotinas e hábitos. Paramos o espaço, pois não temos a necessidade de deslocamentos incômodos. Temos tudo aqui e agora. Um aqui e agora eterno. Morno e previsível.

Criamos mil estratagemas para nos estimular e ajudar a esquecer o tédio. Bebidas, drogas, comidas exóticas (incluídas a prostituição marginal, a pedofilia cristã, o Big brother e outros exotismos patológicos) e demais artifícios inúteis. Eis a modernidade. Afundamo-nos no computador, nos chat chatos, no twitter e na cadeira imóvel e paralisante dos internautas incautos. Qualquer coisa que nos faça esquecer que o ser é movimento e mudança, que a vida passa, que nós passamos, e que a realidade perdeu sua alma gêmea, o sonho.

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SOBRE A AUTORA: *SIMONE ALVES é psicóloga.
[[ Leia também as crônicas de Marcio Paschoal aqui no Crônicas Cariocas ]]
 


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