Todos os Santos
Ontem acodei com um ribombar de fogos de artifício. De início não entendi muito bem o porquê da confusão. Minutos depois lembrei do que se tratava: feriado dedicado a São Jorge. Isso mesmo, São Jorge ganhou um feriado no Rio de Janeiro e anda fazendo mais sucesso que São Sebastião que é o padroeiro da cidade.
A imagem que representa Sebastião nos mostra um homem que morreu amarrado a um tronco, totalmente imobilizado, rendido às flechas que o mataram covardemente. Não é o caso do outro. A imagem de Jorge é de um homem que luta contra um dragão. Segundo a lenda, Jorge matou o dragão para salvar uma princesa. Difere e muito do Jorge histórico, nascido na Capadócia, bravo soldado que veio a morrer decapitado em 23 de abril de 290, ou 330 para outros.
Para quem não sabe, os santos são homenageados na data de sua morte e não na de seu nascimento. Ambos os santos, Jorge e Sebastião, morreram como mártires por não negarem a fé em Cristo.
Há que se concordar que a imagem de Jorge exerce muito mais força no inconsciente coletivo que a de Sebastião. Jorge se apresenta como um herói que vem montado num belíssimo cavalo branco, lança em punho, manto vermelho às costas matando um dragão. E se pensarmos bem, há ainda outro detalhe importante: segundo a crendice popular, São Jorge mora na lua. Quer privilégio maior?
A convivência é pacífica entre os devotos de Ogum, os umbandistas, e os católicos. O número de pessoas que se deslocam para a igreja de São Jorge a fim de homenageá-lo me fez refletir: quem é o povo carioca? Pega-se aos santos e anseia por milagres. Quem tiver dúvida, pare para lembrar as últimas tragédias que assolaram a cidade, as grandes enchentes, os apagões e a falta de segurança que tem gerado medo, desenvolvido neuroses e estresse.
Do jeito que a coisa anda, a dupla Jorge e Sebastião não vai dar conta. Portanto, procura-se um terceiro santo. Quem sabe se esse terceiro dando uma mãozinha as coisas não comecem a melhorar... |