Aviso ao leitor: Crônica chata
Estava na fila do banco e comecei a pensar sobre o que caracteriza algo como chato. O que muita gente detesta, eu adoro e vice-versa. Aliás, fila de banco é uma coisa que me chateia. A quantidade de coisas que saem dos malotes dos contínuos à nossa frente chega a arrepiar os pelos atrás da nuca. Sem contar as pessoas que furam a ordem de chegada e ainda arrumam briga. Ainda tem aquele sujeito que gosta de fazer amizade enquanto a maldita fila permanece mais de qunze minutos no mesmo lugar.
Fazer amigos é muito bom. Mas quando se conhece muita gente, tem sempre um ou mais chatos nos grupos. Eu considero insuportáveis as pessoas muito pessimistas ou muito otimistas. Odeio os hipocondríacos. Detesto os fanáticos por qualquer que seja o tema. Abomino as pessoas espaçosas, intrometidas, que acham que sabem de tudo ou que sua vida é mais importante que a do próprio Cristo crucificado. Esse tipinho de gente sempre quer aparecer mais que os outros convidados numa festa ou ser o mais divertido na mesa do bar. Implico com a pessoa baixinha que quer ser maior que o homem mais alto do mundo – e, pasme, ele é ucraniano e mede 2,57m, segundo o Guinness! Não suporto quem tem remédio para tudo. Esse cretino resolve os problemas do mundo inteiro, desde brigas de casal a cobreiro de pedreiro. Passa tanto tempo cuidando da vida alheia quem nem percebe que está sendo chato.
Tem gente que odeia filme iraniano e eu amo. Há os que amem chorinho e eu fico em pânico só de ver a foto de um cavaquinho. Burocracia e demagogia também me aborrecem. Mas, acredite, poodles não me incomodam.
No entanto, há ocasiões chatíssimas na vida das quais não podemos escapar. São maçantes, porém obrigatórias. Ir ao trabalho por oito horas diariamente é entediante. Comparecer a velório, enterro, batizado e aniversário de chefe é um verdadeiro cacete. Mas por amor ou consideração – e, às vezes, política - passamos por cima da aporrinhação e cumprimos os protocolos. “Eu vou ter que ir, né? Senão fica chato”. Que paradoxo!
Falando em contradição, um certo amigo gay considera chato seu ex-namorado que não gostava de comer, nem de dar. Eles só praticavam sexo oral. O relacionamento durou duas semanas. Já uma advogada me confidenciou achar um “saco” peticionar sobre a inconstitucionalidade de uma Emenda Constitucional. Outra amiga acha chato vomitar toda hora depois do balão intragástrico que colocou no estômago para emagrecer. Para o porteiro do meu prédio, a moradora do quinto andar mereceu o apelido de Chatonilda. Já o Millôr Fernandes afirma que chato é o “indivíduo que tem mais interesse em nós do que nós temos nele”. E por aí vai...
No dicionário, “chato” pode ser uma doença venérea, o famoso piolho pubiano. Também é adjetivo para liso, plano, sem relevo. Mas na prática, a chatice tem um significado muito pessoal. Agora, eu duvido que alguém discorde de mim que essa crônica acabou ficando chata. E eu bem que avisei lá no título... Você chegou até aqui porque quis. |