Belmira
Ela veio dos rincões baianos para Montes Claros, na grande migração de 30. Chamava-se Belmira e morava na Rua Corrêa Machado, início do Bairro Morrinhos, em um barraco com cobertura de taipa e paredes de bambu e barro. Próximo onde fica o Viaduto Manoel Emiliano.
Estatura média, mais para gorda, carapinha branca, em 1952 já com os seus oitenta anos, o rosto denotava severidade, mas dava gargalhadas estridentes, metálicas e assim era a sua voz que chegava a assustar. Retumbava pela vizinhança.
Nascera filha de escravos na Bahia de Todos os Santos e a arte da reza de benzer e de desmanchar mandinga aprendera com a sua avó Pulucena, uma iniciada nos ritos puros de candomblé na rama do Angical.
Criava aves que circulavam por um acanhado quintal com uma moita alta de bambus e variadas espécies de plantas para chás, infusões, descarrego e a arte de benzer. No centro da casa, no chão de terra, um fogão de lenha, circundado de pedras, sempre com uma panela de ferro ardendo no fogo lento.
Era o caldeirão da bruxa, o forno do alquimista, ponto de transmutação vibratória. Era lá que se preparavam às garrafadas, as contra mandingas, os banhos, os ebós. Era onde se queimava o batú, e batia a fundanga africana. A sua voz forte vibrava com os cânticos em dialeto das suas origens ancestrais.
Pelos cantos da tapera, tocos de velas acesas. Cera de mirindiba e pavio entrelaçado na gira da roda de Aruanda.
Minha avó paterna me confiava levar pessoas de suas relações, para uso dos serviços de Belmira Rezadeira. Eram hóspedes da pensão Serra Azul, gente vinda de Guanambí, Morro do Chapéu, Caculé, na Bahia e das Alterosas, a capital de todos os mineiros.
Vizinhos, amigos, aflitos dos males do corpo e da alma. Crianças com quebranto, mau olhado, com doenças malignas. Senhoras com enguiço. Gente com ziquizira!
Ela avaliava o paciente visualmente antes do mesmo entrar na sua choupana e me dizia: dá uma volta menino e depois vem buscar a pessoa-. Senta ele aqui que vai ser ligeiro. - Não entre que está carregado! Sorrateiramente através das rachadoras nas paredes de bambu e barro eu assistia a tudo, mesmo a descarga pesada, para retirada de ovóides.
Vi coisa do arco da velha! Gente botando sangue pisado pelo nariz, pela boca, vórtices de energia saindo do chacra solar do paciente e passando pelo teto de palha. Escamas de pele se despregando dos braços do paciente e caindo ao solo junto às folhas enrugadas.
Feridas purulentas que não se curavam eram sugadas pela boca da médium incorporada aos Pretos Velhos Nagós. No dia seguinte não restava nem sinal da lesão no corpo do paciente!
Algumas entidades em forma de ovóides eram expelidas pela boca e narizes dos doentes. Amparadas em uma pequena bacia de alumínio e enroladas em tecido branco, ambos sem uso anterior. Posteriormente, esses restos de “niasma” astral eram enterrados no quintal de terra da tapera.
Quando entrava para apanhar de volta o consulente, chegava a sentir o peso do ar, cheiro da cuanga que fora retirada, da cera de mirindiba derretendo, os aromas misturados das raízes, ervas aromáticas, terra batida. No solo, as folhas murchas, resultado da limpeza e descarga vibratória da aura do enfermo.
Crianças eram atendidas no colo da mãe, ou da acompanhante. Ela orava em Ioruba e soprava nos ouvidos do pequeno ser fazendo a manipulação, mantendo na mão um azeviche de ébano: Cosi oba can, Afí Olurum!
Num pequeno quarto de fundo, o altar de Ogum, o ponto das firmações. Como um gênio da lâmpada de Aladim e preso dentro de uma pequena cabaça pendente ao seu pescoço por uma embira, um Flamalial. Um diabrete que a qualquer hora poderia ser solto, a seu serviço.
Belmira faleceu em 1964, já quase centenária, sem nunca ter atendido a um telefonema. Ao ver o aparelho de baquelita preta dizia: esta “instrumenga” não é coisa de gente; é coisa de fuxico!
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